Quando o pescador estende sua rede no chão
ou na água, ela se deita horizontalmente,
espraiada para alcançar o espaço mais amplo
que puder. Nenhum nó está acima dos outros,
nem é mais importante do que os outros. Nenhum
nó pode pensar os outros nós como competidores,
adversários ou inimigos. Cada nó sabe que,
fazendo parte da rede, está indissoluvelmente
ligado a quatro nós ao seu redor, que por
sua vez estão ligados cada um a quatro outros
nós, numa progressão exponencial... para formar
a rede. Portanto, cada nó tem consciência
de sua responsabilidade por si próprio, pela
sua ligação com os quatro nós seus vizinhos,
e pela integridade da rede inteira. Cada nó
sabe que é único e que os outros nós também
são únicos. É esta diversidade de nós que
forma a unidade da rede. Quando o pescador
reflete sobre esta maravilhosamente simples
complexidade, lágrimas de emoção escorrem
dos seus olhos. Ele ama a rede, pois ela é
obra dele, e é bela e eficaz. Ela reflete
a maravilhosamente simples complexidade que
ele é.
Assim é a Economia Solidária. Ela trata de
muito mais do que a mera atividade de produzir
para sobreviver. Ela é uma arte da vida. Ela
(eco=casa; nomia= gestão) nos desafia à gestão
e ao cuidado das diversas casas que habitamos
(o corpo, a morada da família, a comunidade,
o município, o ecossistema, o país, o planeta).
Ela convoca cada habitante a empoderar-se
para ser sujeito do desenvolvimento dos seus
potenciais individuais e coletivos. A atividade
econômica é meio para tornar viável o desenvolvimento
humano e social. Este é o verdadeiro fim a
almejar. Um fim em contínuo movimento, sempre
mais além, pois nossos potenciais são infinitos!
Este desenvolvimento também pode ser definido
como conquista permanente de cada vez maior
grau de liberdade: liberdade em relação às
amarras da mera sobrevivência, à cadeia do
trabalho escravo ou assalariado (emprego),
à privação dos diversos direitos e à alienação
em relação aos nossos deveres de cidadãos
e de seres humanos num Universo também em
movimento.
A Economia Solidária afirma que ninguém empodera
ninguém, e ninguém se empodera sozinho. Mas
para empoderar-se como pessoa e como ser social,
cada um precisa estar interligado conscientemente
com outras e outros. Se esta ligação for hierárquica
e vertical, ela será dominadora e alienadora.
Só a ligação horizontal, não hierárquica é
emancipadora. Outro nome desta ligação horizontal
é democracia. A verdadeira democracia é como
a rede do pescador: cada pessoa é plenamente
responsável por si própria e pela comunidade
humana inteira, numa relação de harmonia dinâmica
com o ambiente. A relação entre as pessoas
se dá pela cooperação, reciprocidade, respeito
à diversidade, solidariedade, construção de
unanimidades sem sacrificar a diversidade.
A rede é a unidade da diversidade.
A educação emancipadora é aquela que contribui
para o autoempoderamento do educando a fim
de exercer a responsabilidade de gerir seu
próprio desenvolvimento, individual e social.
A educação emancipadora ensina a ir sempre
mais além. O educador da emancipação é aquele
que trabalha para que cada educando aprenda
a aprender sem precisar mais dele. Esta vocação
está marcada pela humildade de desejar que
o educando consiga, enfim, dispensar a sua
guia. Este é o desejo do autoempoderamento
do outro, a ponto de este tornar-se um caminhante
que, com o seu andar, abre o seu próprio caminho.
Mas esta caminhada é longa e cheia de riscos,
de desvios. A educação emancipadora ensina
a não temer riscos, nem crises, nem conflitos.
Em meio à diversidade que constitui a vida,
eles são naturais. Aprender a lidar com eles
não como inimigos, mas como aliados ajudam
a crescer e a avançar para frente e para cima.
Na sua humilde impecabilidade, o educador
da emancipação deseja que o educando o alcance,
e mesmo o supere, nas três artes de ser, saber
e saber fazer. Um tal educador pratica a educação
amorosa. E quando esta educação está a serviço
de uma economia solidária, ela informa as
relações que tecem a economia de um conteúdo
social, solidário, amoroso. E do amor brota
naturalmente o fim maior da nossa existência
na Terra: a vida sempre mais plena, a felicidade.
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* Marcos
Arruda
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