IMPLANTANDO
A REDE DE TROCAS SOLIDÁRIAS
DO RIO DE JANEIRO
(Pressupõe a leitura da ficha de out/99)
Na terceira oficina do Curso
de Viabilidade Socioeconômica, do Fórum de Cooperativismo
Popular do Rio de Janeiro, organizamos a seção
de fundação do primeiro grupo da Rede de Trocas
Solidárias usando moeda própria. Adotamos os seguintes
passos:
1. Conversa sobre a proposta
de Carta de Princípios da Rede. Emendas e aprovação.
2. Criação coletiva da moeda comunitária
da RTS: nome, valores de referência.
3. Escolha da Coordenação, Secretaria, Recepcionista.
Definição dos valores a pagar por seu trabalho.
4. Distribuição da versão preliminar do
Catálogo e diretório dos participantes. Atualização
das demandas e ofertas dos participantes. Recolha de telefones,
fax e correio eletrônico (cel) de contato.
5. Marcação das próximas reuniões
e feiras.
6. Avaliação.
1. Rediscutimos a lógica
e as regras do jogo. Fizemos modificações na proposta
e aprovamos uma versão que passou a vigorar para o período
fixado até fim de fevereiro de 2000. Nesta data, faremos
uma avaliação da experiência e redefiniremos
os rumos e os termos de compromisso, corrigindo e inovando onde
for necessário. A Carta de Princípios está
disponível no PACS (pacs@ax.apc.org, ruthrj@hotmail.com)
2. Fizemos nova escolha de nome
para a moeda e para o grupo. Adotamos como moeda o tupi, com
o mesmo valor da vitória (do jogo da segunda oficina):
1 tupi equivale a uma hora de trabalho social, ou a R$ 5,00.
Decidimos que faríamos um acompanhamento das transações
realizadas com tupis ou diretamente. Para isto a secretaria circulará
folhas de registro de transações, em que se anotará
o valor delas, as pessoas envolvidas e a data. As notas serão
válidas para dez transações, e receberão
o nome do participante e de todos os que as receberem em troca
de venda de bens ou serviços. Caberá ao Ecobanco
registrar as transações e publicar os balanços.
Também renomeamos o grupo: se chama agora Mutirão
Quilombo, e será o primeiro grupo da Rede, com participantes
vindos de diversas bairros e até municípios do
estado. Funcionará como 'berçário' para
a formação de multiplicadores e coordenadores de
outros grupos ou mutirões com base geográfica definida.
3. Foram escolhidos Robson e
Jurema como coordenador e suplente, Denise e Zeferino como secretária
e suplente, Maurício e Luciana como recepcionistas e Robson
(do Jacarezinho) como tesoureiro. Ficou acertada a remuneração
de 1 tupi para cada um pelo trabalho que fizer na reunião/feira
e entre reuniões. Recolhemos 1 tupi de cada participante,
pagamos o coordenador, a secretária e o recepcionista,
e restaram 14 tupis em caixa para gastos de gestão.
4. O PACS havia transformado
o registro das ofertas e demandas apresentadas na 2a. Oficina
em catálogo e diretório, que foi distribuído
na ocasião. Refizemos o mapa das ofertas e demandas, dado
que tínhamos participantes que não estavam presentes
no jogo da 2a. Oficina.
5. Acertamos de fazer a próxima
reunião/feira em seguida à reunião mensal
do FCP, dia 5/10/99. E a seguinte seria dia 16/10/99. Consolidamos
a divisão de trabalhos preparatórios. O PACS ficou
responsável pela impressão das notas de tupis e
tupimirins (centavos de tupi).
6. Na avaliação,
os participantes sublinharam o aspecto inovativo da RTS, tanto
no estímulo à criatividade dos participantes, quanto
na comercialização dos seus produtos, quanto na
autogestão.
EVOLUÇÃO ATÉ NOVEMBRO DE 1999
Ecobanco - O PACS tornou-se a
sede provisória do Ecobanco. O objetivo do Ecobanco é
administrar a moeda comunitária: imprimi-la, definir as
quantidades em circulação, gerir a circulação,
substituir as notas utilizadas para 10 transações
por outras novas e produzir o balanço bi ou trimensal.
O PACS é só o agente executivo, as decisões
são tomadas pela Coordenação. Na primeira
reunião da Coordenação, em 15/10/99, ficou
decidido que os novos membros receberiam 45 tupis cada um por
um período de prova, até sua integração
definitiva ao grupo. Os membros receberam um total de 91 tupis,
sendo 6 tupis em tupimirins.
Reunião-Feira de 5/10/99
- Ocorreu após a reunião ordinária do FCP,
que teve como tema principal a discussão sobre microcrédito
solidário com o companheiro boliviano Pancho Otero. O
relatório desta reunião foi distribuído
a todos os participantes do FCP e está disponível
no PACS. Grande parte dos participantes tiveram que sair ao fim
da reunião do FCP. Menos de 10 membros do Mutirão
ficaram para a feira. Assim mesmo diversas transações
foram realizadas, de frutas secas, a microalga spirulina (suplemento
alimentar rico em proteínas e outros nutrientes), roupas
e alguns serviços. Tivemos também novas adesões.
Reunião-Feira de 16/10/99
- Foi realizada na sede do PACS, entre 10 e 13h do sábado
16. Robson, o Coordenador, fez uma breve apresentação
sobre a RTS, o Mutirão e o tupi. Foram circulados a Declaração
de Princípios, a ficha cadastral e o Termo de Compromisso
(todos disponíveis no PACS). Fizemos um mutirão
de trabalho para numerar as notas já impressas. Distribuimos
as notas pelos participantes, tirando de circulação
os tupis velhos. Depois demos a cada novo membro (inclusive uma
criança de 9 anos!) 45 tupis. A pergunta recorrente era:
-- "Mas como posso receber
este dinheiro sem ter feito nada? De onde ele vem?"
-- O Mutirão Quilombo da RTS faz um gesto de confiança
dando a você esta quantia em tupis. Mas os tupis só
passam a ter valor no momento em que você os utiliza para
comprar algum bem ou serviço. Antes disso é uma
simples folha de papel colorido, bonita mas sem valor. O valor
quem dá é você, comprando dos outros ou vendendo
sua própria produção. Eis uma das principais
diferenças dos dinheiros oficiais. Este dinheiro simboliza
bens e serviços que a gente produz realmente. E como não
tem juros associados a ele, a você não interessa
guardá-lo, mas sim fazê-lo circular, o que significa
maior atividade econômica, mais necessidades satisfeitas
e maior bem estar para toda a Rede.
Todos os participantes presentes
assinaram seus Termos de Compromisso e aderiram à Carta
de Princípios. A feira gerou uma intensa atividade de
trocas, incluindo biscoitos amanteigados, a microalga spirulina,
roupas, livros, árvores de Natal de croché, e alguns
serviços. Pablo, o menino que trouxe os biscoitos, vendeu
quase todos antes mesmo de começada a feira. Robson e
Lina acertaram uma troca de aulas, ele, de computação,
ela, de inglês.
Seminário de Capacitação
e Integração, Buenos Aires - A RTS decidiu enviar
Robson e Marcos para participarem deste seminário, entre
28/11 e 3/12/99, que será ministrado por Heloisa Primavera,
Carlos Del Valle, Istvan Karl (Argentina) e John Fernando Sandoval
(Colômbia), animadores da Rede Global de Trocas. Robson
e Marcos farão uma ficha sobre o seminário.
PALAVRAS-CHAVE: DINHEIRO; SOCIOECONOMIA;
SOLIDARIEDADE; ESCAMBO; TROCA; COMUNIDADE; VALOR; DOMINAÇÃO;
PODER; SOCIEDADE; AUTOGESTÃO; AUTOREGULAÇÃO.
FONTE: PACS - Instituto Políticas
Alternativas para o Cone Sul
Rua Joaquim Silva, 56 - 8º andar - Centro - Rio de Janeiro,
RJ, Brasil -
20241-110
Tel.: + 55 21 252 03 66 - Fax: + 55 21 232 63 06
e-mail: pacs@alternex.com.br
AUTOR: Marcos Arruda, coordenador geral do PACS e animador do
Polo de Socioeconomia Solidária, da Aliança por
um Mundo Responsável e Solidário.
Rio, 3 novembro 1999
SOCIOECONOMIA
SOLIDÁRIA E O ESTADO-NAÇÃO
*Marcos Arruda - TNI/PACS
Em tempos de globalização
neoliberal, quando o mercado livre é de novo apresentado
ao mundo como o único e mais justo distribuidor de recursos,
investimentos e riqueza, o Estado-Nação é
visto como um obstáculo para acumulação
e a reprodução do capital. As elites corporativas
e os diferentes tons ideológicos de políticos nos
dois hemisférios, a começar por Margaret Thatcher
e Ronald Reagan, têm ocupado o Estado com a finalidade
de transferir para o setor privado patrimônio público
e também diversas obrigações e mandatos
do Estado. Os serviços públicos têm sido
rapidamente convertidos em mercadoria, e o poder de compra da
população hoje, mais que nunca antes, é
a cruel condição da sobrevivência humana.
Paradoxalmente, no entanto, o Estado-Nação, sobretudo
aquele vinculado aos interesses da classe capitalista, continua
atuando, com maior ou menos vigor, como protetor e benfeitor
daqueles interesses.
No contexto do conflito hoje
quase universal entre capital e trabalho, o Estado-Nação
e as instituições multilaterais têm sido
firmes aliadas do capital e, neste sentido, desempenham um papel
aparentemente indispensável, do ponto-de-vista dos próprios
capitalistas neoliberais. Num mundo de abundância para
poucos e escassez para bilhões, isto é simplesmente
inaceitável. Afinal, o Estado-Nacão está
desaparecendo à medida que a globalização
neoliberal avança? Que Estado podemos visualizar, para
que Nação? Na perspectiva de uma socioeconomia
alternativa, qual poderia ser o papel do Estado-Nação?
1. Estado-Nação como uma criação
histórica
Na História a existência
do Estado está relacionada direta ou indiretamente
com o modo de produção dominante. É
uma superestrutura que repousa sobre a estrutura socioeconômica.
Muda conforme ocorrem mudanças nessa estrututura. Com
o atual estágio da globalização, está
mudando outra vez, e é a classe hegemônica que já
controla o Estado, aquela que também está controlando
a mudança. Na minha opinião, o Estado não
tende a desaparecer enquanto a globalização neoliberal
progride. O que está desaparecendo é o Estado do
bem estar, o Estado social-democrático e, talvez, não
por muito tempo, se afinal predominarem as propostas neokeynesianas
que estão emergindo do Banco Mundial.
Redes de seguridade
social, políticas de investimento social, programas oficiais
de alívio à pobreza, estas são algumas formas
de intervenção estatal na economia que têm
a ver com o fracasso da economia privatizada de mercado
atender às necessidades de todos os cidadãos e
cidadãs, e distribuir com eqüidade os recursos escassos
do Planeta em benefício da sociedade como um todo. No
hemisfério Sul, a necessidade de tais reformas e programas
é uma manifestação do fracasso das políticas
de ajuste estrutural de preencherem suas alegadas finalidades
de gerar eqüidade econômica e satisfação
social, como resultado da estabilização da economia
e da retomada do crescimento econômico. As reformas de
mercado são na verdade anti-mercado, na medida em
que estimulam a formação de monopólios,
a desregulação, e a concentração
de renda e de riqueza. Qualquer intervenção estatal
neste contexto ignora, e na verdade reforça, os fatores
de iniqüidade e empobrecimento, e podem ser de natureza
apenas compensatória. São concebidas para adiar
a explosão das contradições internas do
padrão capitalista de produção e de consumo.
2. O Estado-Nação está em
crise com a globalização neoliberal
O Estado-Nação
vai continuar a estremecer enquanto persistir a globalização
neoliberal. A lógica das reformas neoliberais é
não eliminar o Estado, mas adaptá-lo ao
papel que os capitalistas do livre mercado querem
e precisam que ele desempenhe:
1) como amaciador e, quando
necessário, agente repressivo do protesto social;
2) como garantia da liberdade
de mercado (que na realidade significa liberdade para o capital
e subordinação para a força de trabalho
e para as nações menos desenvolvidas;
3) como subsidiador do setor
privado mediante fundos públicos e contratos facilitados;
e
4) como fator de legitimação
da globalização subordinada das economias menos
industrializadas.
A evidência de que as
políticas e reformas neoliberais têm sido fatores
de empobrecimento nos países do Sul, assim como nos do
Norte, está forçando mudanças de discurso,
e provavelmente também de políticas. O capitalismo
se apressa em apresentar suas contradições e perversidades
sistêmicas como se fossem acidentes, problemas
temporários que devem ser atribuídos a quaisquer
fatores que não sua própria natureza e estrutura.
Chamo a natureza do capitalismo de crematística (= que
visa apenas a acumulação de riqueza material),
em vez de socioeconômica (= que visa a gestão da
casa e dos seus habitantes). Em ciclos intervencionistas,
quando surge uma crise, os capitalistas a atribuem à falta
de suficiente liberdade de mercado, e pressionam por liberalização.
Em ciclos liberais, atribuem as crises à falta de regulação
estatal e de políticas públicas mais eficazes.
Assim, tentam salvar o capitalismo de ser identificado como o
verdadeiro fator determinante das enfermidades da socioeconomia.
Atualmente estamos vivendo o fim de um ciclo liberal. A questão
é quando e como os povos vão finalmente agir para
romper com o próprio capitalismo e com o Estado capitalista.
Outras vias para o Estado-Nação
existem para aqueles que acreditam que o capitalismo não
é o único modelo viável de organização
da socioeconomia, e que a globalização neoliberal,
liderada pelas empresas transnacionais, não é o
único tipo viável de globalização
a que podemos aspirar.
3. O Desafio da Democratização do
Estado-Nação
A meu ver, o Estado-Nação
será uma realidade enquanto a Nação existir.
E a Nação está relacionada com pelo menos
três elementos que são, e por muito tempo continuarão
a ser parte da existência e aspiração da
humanidade contemporânea: a territorialidade, a identidade
e a soberania popular. O papel-chave de um Estado democratizado
é ser a garantia do pleno respeito pelos direitos humanos
que incluem os direitos econômicos, sociais, políticos
e culturais de cada um e de todos os cidadãos e cidadãs,
assim como o direito do conjunto da Nação à
soberania. Neste sentido, a Declaração Universal
(e os documentos internacionais que vieram complementá-la)
deveriam servir de embasamento para legislação
nacional e internacional que inclua estes aspectos e dimensões.
Contudo, enquanto continuar o
divórcio capital x trabalho, o Estado-Nação
vai continuar a ser necessário, pelo menos no modo como
o conhecemos hoje. E uma das mais graves enfermidades resultantes
de tal divórcio é o fato de os trabalhador estar
individual e coletivamente impedido de possuir, controlar e administrar
os bens e recursos produtivos; e ser tratado como fator
de produção, consumidor, e contribuinte,
sem identidade, uniforme, isolado de todo outro contexto além
de emprego, da loja e do ato de pagar impostos. A História
mostra que as formas de socialismo centradas no Estado não
contribuíram para a superação daquele divórcio,
conforme o prometido. Assim, a luta continua em busca de caminhos
novos e eficazes de superação daquele divórcio.
A riqueza não é produzida apenas pelos proprietários
do capital nem pela tecnologia, mas essencialmente pelos trabalhadores
e trabalhadoras o conhecimento e trabalho coletivo daqueles
e daqueles que participam da sua criação, aos quais
Marx chama de indivíduo social.
Algumas das condições
para que os ganhos de produtividade sejam justamente distribuídos
e democratizados, beneficiando assim toda a sociedade, e não
apenas uns poucos, são:
1) que os trabalhadores se
empoderem no plano econômico (ganhando o controle cooperativo
sobre os meios de produzir a riqueza e o conhecimento) a fim
de se empoderarem também politicamente; e
2) um forte Estado democratizado,
plenamente controlado pela sociedade e posto ao seu serviço.
4. Caminhos para a Democratização
do Estado-Nação
Em muitos países, partidos
populares e democráticos têm ocupado governos locais
e estaduais e estão desenvolvendo experiências criativas
de democratização do Estado. No Brasil, partidos
progressistas detêm o controle de centenas de governos
municipais e seis governos estaduais. No Uruguai, um vigoroso
movimento cooperativo se desenvolve e as experiências de
governos locais criaram um rico acúmulo de lições
sobre como democratizar o Estado. Ao ponto de as forças
progressistas de ambas estas Nações terem chegado
muito perto de vencer as eleições federais. Tendências
semelhantes são encontradas noutros países dos
dois hemisférios.
O desafio é complexo:
1) Como implementar uma plataforma
governamental que combina uma abordagem reformista (o que é
possível) com a integridade a respeito dos objetivos estratégicos
de transformação (o que é desejável)?
2) Como fazer que as políticas
e das iniciativas governamentais não sejam um fim nelas
mesmas, mas sim meios para criar espaço e oportunidade
para que a sociedade como um todo se empodere e se torne o sujeito
político dominante?
3) Como governar para
todos e, ao mesmo tempo, continuar a ser leal e sensível
às necessidades, interesses e aspirações
das amplas massas da população?
4) Como coordenar o desenvolvimento
social e humano do país e, ao mesmo tempo, realizar seu
papel de educador da sociedade (no sentido gramsciano) para o
fim último do empoderamento das pessoas, comunidades e
da não para o desenvolvimento autogestionário?
5) Como fortalecer o sentido
de auto-estima e auto-identidade da Nação, criando
simultaneamente pontes e estabelecendo laços de verdadeira
cooperação, complementaridade e solidariedade com
outras Nações, contribuindo assim para tornar realidade
uma globalização que seja cooperativa, e não
competitiva?
6) Como instilar este mesmo
espírito e objetivos nas instituições multilaterais
Na minha opinião, as contradições
e as oportunidades geradas pela globalização neoliberais
tendem a levar o mundo para um momento de rutura: experiências
de um mundo que está sendo reconfigurado de baixo para
cima multiplicam-se por toda parte, através da apreciação
do valor do trabalho e da capacidade criativa de cada indivíduo,
assim como da diversidade humana a que chamo noodiversidade:
cada pessoa, com sua subjetividade e singularidade, cada comunidade,
cada grupo social (incluindo grupos étnicos, grupos de
gênero, grupos indígenas), cada Nação.
Este é o caminho para uma forma cooperativa e fraterna
de globalização.
O empoderamento econômico
e político de cada um e de todos os indivíduos,
comunidades e grupos sociais é o verdadeiro conteúdo
de uma genuína democracia e de um genuíno socialismo.
Nesta perspectiva, as Nações podem ser reconcebidas
como unanimidades (almas juntas, um projeto em comum no sentido
de objetivos compartilhados) na diversidade (não às
custas da diversidade). Ao mesmo tempo, podem ser concebidas
como noodiversidades coletivas em busca de unanimidade para fortalecer
o desenvolvimento dos seus potenciais sempre mais além.
O objetivo último do Estado: ser um orquestrador da diversidade
humana e socioeconômica e um catalizador para o estabelecimento
de unidades sempre renovadas na diversidade. O mesmo pode ser
postulado para as instituições multilaterais e
para um eventual Estado planetário, com respeito às
sociedades e Estados locais e nacionais.
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PALAVRAS-CHAVE: Território, sociedade civil,
cidadania, Estado, desenvolvimento local, regulação,
local-global, neoliberalismo, estatismo, social-democracia, instituições
internacionais, agências multilaterais.
FONTES:: PACS - Instituto Políticas
Alternativas para o Cone Sul
Rua Joaquim Silva, 56 - 8º andar - Centro - Rio de Janeiro,
RJ, Brasil - 20241-110 Brasil -- Tel.: + 55 21 252 03 66 - Fax:
+ 55 21 232 63 0
Cel: pacs@ax.apc.org
*NOTE: Marcos Arruda é o coordenador geral do PACS
e um dos animadores do Polo de Socioeconomia Solidária.
Resumo de sua apresentação no Festival do 25o aniversário
do Instituto Transnacional. Amsterdam, novembro 1999.
ALTERNATIVAS
À GLOBALIZAÇÃO NEOLIBERAL
No início dos anos 70,
Henry Kissinger era Secretário de Estado do governo Nixon.
Eram tempos da Comissão Trilateral, que reunia gente poderosa
(políticos e grandes empresários e banqueiros)
da América do Norte, Europa e Japão, para discutir
como partilhar o mundo entre eles. Tomando café com o
Ministro de Relações Exteriores do Chile, Gabriel
Valdéz, ouviu deste o comentário de que os países
do Sul precisavam ter suas necessidades e interesses reconhecidos
pelo mundo rico. Ao que Kissinger respondeu algo assim: 'é
preciso que vocês entendam de uma vez por todas que para
nós o mundo só existem do equador para cima'.
Lendo os comentários de
Kissinger sobre a globalização e as desigualdades,
em palestra recente em Dublin, podemos perguntar se se trata
da mesma pessoa, ou de mais uma que só muda de mentalidade
e discurso depois que saiu do poder. "O desafio básico
é que o que se chama de globalização é
na verdade outro nome para a posição dominante
dos Estados Unidos", diz ele. "Num sentido importante,
o próprio sucesso dos EUA é que é o problema."
Reconhece, assim, que a globalização assimétrica
que predomina hoje é um jogo em que um país globaliza
(na voz ativa), e o resto do mundo é globalizado (na voz
passiva)... Mas se olharmos por trás deste fenômeno,
identificamos uma realidade ainda mais atroz: o "país"
Estados Unidos é menos real do que os interesses dos grandes
grupos transnacionais privados, de base norte-americana, cujos
interesses os sucessivos governos dos EUA representam e defendem.
Portanto, se trata de subordinar as economias e populações
do mundo aos interesses daqueles grupos.
O caso do Brasil é ilustrativo.
Chamam-nos de "país emergente". Mas quem está
emergindo no Brasil são os grupos transnacionais e as
elites brasileiras que estão ao seu serviço. Gonçalves
(1994), comparando a abertura dos EUA ao capital estrangeiro
com a do Brasil, mostra que a globalização (entendida
como ocupação da economia nacional por grupos transnacionais)
da indústria brasileira era muito maior no Brasil do que
nos EUA. Aqui, a participação de empresas transnacionais
era de 32% da produção, contra 11% nos EUA, e de
23% dos empregos, contra apenas 7% nos EUA. Os coeficientes brasileiros
só eram superados, no hemisfério Norte, pela Bélgica
e Canadá, e no Sul pela Malásia, Cingapura e Venezuela.
Mas isto foi antes do período Fernando H. Cardoso que,
nos últimos cinco anos, tem acelerado a ocupação
dos diversos setores da economia brasileira como nenhum outro
governo jamais fez antes, inclusive o setor financeiro e de serviços.
Kissinger, em Dublin, continua:
"O sistema econômico global favorece, acima de tudo,
os países desenvolvidos; os países em desenvolvimento
ficam para trás e não somente por causa de políticas
inadequadas da parte deles." O argumento que o Banco Mundial
e o FMI têm usado para explicar o fracasso do ajuste estrutural
tutorado por eles em países como a Rússia, o México,
a Tailândia, a Malásia, etc., é que os governos
destes países não adotaram adequadamente as políticas
recomendadas por aquelas instituições. Kissinger
não está convencido disso, pois aponta para a tendência
do sistema de produzir crises financeiras cada vez mais severas
e globais, sem que a obediência às prescrições
logre imunizar os países, citando a Argentina e, 'até
certo ponto', o Brasil. Sabemos que aqueles prescrições
vêm do FMI e são, invariavelmente, a austeridade,
a liberalização dos mercados, inclusive financeiros,
a emasculação do poder regulador do Estado, a recessão
e, em conseqüência, o aumento da brecha social e da
instabilidade política. Kissinger sugere as seguintes
medidas para enfrentar estes problemas:
- alguma reconciliação
entre o mercado e o que é social e politicamente suportável;
- algum acordo sobre a relação
entre a equidade e o capital especulativo;
- algum meio de resolver as crises
mitigando a austeridade;
- políticas comerciais
que levem em conta as preocupações dos países
em desenvolvimento com seus problemas especiais (recado para
a OMC e para os governos do Sul);
- o reconhecimento pelos EUA de
que suas políticas fiscais e monetárias afetam
não só seu interesse nacional, mas o sistema global.
O economista-chefe do Banco Mundial,
Joseph Stilitz, também descortina a necessidade de caminhos
de superação da globalização monopolista,
pelo menos no discurso. "O crescimento requer capital, este
último busca o maior retorno possível com o menor
risco e os EUA oferecem a melhor relação entre
risco e retorno... O dinheiro vai aonde é mais produtivo.
E isso não significa a Rússia, o Brasil ou a Nigéria,
significa Nova York ou a Califórnia." No mundo dominado
pelo capital financeiro, o dinheiro na verdade vai aonde é
mais rentável. E, como o movimento das finanças
internacionais em clima de globalização neoliberal
é cada vez mais desregulado (ver o Acordo Multilateral
de Investimentos, hoje na agenda da OMC, e como sua lógica
já está incorporada em acordos regionais, como
a ANALC [NAFTA], e bilaterais), o dinheiro migra incessantemente,
alternando entre mercados altamente rentáveis, como os
'emergentes' em momentos de relativa estabilidade, e mercados
mais seguros, embora menos rentáveis, como os de países
como EUA, Suíça, Inglaterra.
As previsões do economista
francês François Chesnais (1998: 86) são
sombrias: "A partir de duas décadas de experiência
de um capitalismo triunfante, a perspectiva certa de uma recessão
mundial aguda, durante a qual o crescimento do produto bruto
mundial caia perto de zero, como a forte possibilidade de uma
crise mundial muito mais grave, provocada por uma quebra em Wall
Street, vão pôr de novo na ordem do dia a questão
do custo social e humano exorbitante do capitalismo e, portanto,
da necessidade de procurar meios de superá-lo."
Até mesmo em Paul Volker,
ex-presidente do Federal Reserve Bank dos Estados Unidos , fica
evidente a sensação de urgência na busca
de mudanças profundas no sistema da globalização
monopolista: "Os problemas que parecem ter tanta força
hoje são sistêmicos - surgem do interior do próprio
mecanismo de funcionamento do capitalismo financeiro global...
Um ano atrás, expressar essa visão seria suficiente
para questionar minha fidelidade a tudo que é bom e sagrado
- a santidade dos mercados e sua infalível capacidade
de se ajustar, a liberdade dos fluxos de capital e do comércio
- talvez mesmo a democracia propriamente dita... A questão
básica é tão antiga quanto o capitalismo
financeiro em si. O sucesso cria confiança e leva a um
excesso de autoconfiança. A ganância sobrepõe-se
à prudência. Então, algo inesperado acontece
e levanta dúvidas. O medo se torna contagioso. As autodefesas
individuais ajudam a espalhar o mal-estar. E se os excessos se
espalharem demais, a crise financeira torna-se uma crise econômica,
na qual a maior parte dos mercados emergentes se encontra hoje"
(grifos meus).
Destas proposições
podemos depreender que o maior risco não está situado
em um ou mais países 'emergentes'. O maior risco está
no próprio sistema da globalização monopolista
e neoliberal. Volker usa palavras que manifestam não apenas
uma ideologia, mas uma religião do capital. E as verdades
'sacrossantas' desta religião do capital estão
se quebrando como a estátua de Baal em Nabucco, de Verdi!
Alguns dos mais ferrenhos protagonistas do sistema estão
hoje alertando para aquele risco e clamando por mudanças,
seja para o preservar mais equitativa e, portanto, equilibradamente,
seja para transformar radicalmente o sistema.
Entre os movimentos que se organizam
globalmente para educar, organizar e pressionar por uma globalização
alternativa estão o ATTAC, Associação para
uma Taxação das Transações financeiras
para Apoio aos Cidadãos, originado na França (um
nome bem francês...), que está congregando cidadãs
e cidadãos de dezenas de países do mundo em favor
não só de taxação e regulação
das transações financeiras, mas de uma profunda
reforma do sistema financeiro internacional e das instituições
de Bretton Woods; o Coletivo Cidadão contra a OMC, da
França; a Aliança Social Continental para combater
a proposta norte-americana de uma Associação de
Livre Comércio das Américas e propor uma autêntica
integração dos povos; 50 Anos Bastam, originado
nos EUA, que luta por reformas profundas nas instituições
multilaterais; e a Aliança por um Mundo Responsável
e Solidária, que articula cidadãs e cidadãos
de mais de 100 países a fim de elaborar propostas e reforçar
práticas inovadoras, cujo conteúdo já encarna
a visão de um novo milênio marcado por uma cultura
da co-responsabilidade, da eqüidade, da ética, da
sustentabilidade social e ambiental, e da solidariedade (ver
o sítio web www.echo.org).
Bibliografia: Rubens Ricupero,
"Globalização com sotaque diferente",
Folha de S.Paulo, 24/10/99. Reinaldo Gonçalves, "Ô
Abre Alas - A Nova Inserção do Brasil na Economia
Mundial", Relume-Dumará, Rio de Janeiro. François
Chesnais, "Tobin or not Tobin? Une taxe internationale sur
le capital", L'Esprit Frappeur, Paris. Paul Volker, Gazeta
Mercantil, 19/10/98, São Paulo
PALAVRAS-CHAVE: GLOBALIZAÇÃO,
DINHEIRO; SOCIOECONOMIA; SOLIDARIEDADE; DOMINAÇÃO;
PODER; SOCIEDADE; REGULAÇÃO, POLÍTICA FISCAL.
FONTE: PACS - Instituto Políticas Alternativas
para o Cone Sul
Rua Joaquim Silva, 56 - 8º andar - Centro - Rio de Janeiro,
RJ,
Brasil - 20241-110
Tel.: 55 21 252 03 66 - Fax: 55 21 232 63 06 CEl: pacs@ax.apc.org
AUTOR: Marcos Arruda, coordenador geral do PACS, co-animador
do Polo de Socioeconomia Solidária, da Aliança
por um Mundo Responsável e Solidário e membro do
Instituto Transnacional (Amsterdam).
Rio, 6 novembro 1999.
CRIANDO
A REDE DE TROCAS SOLIDÁRIAS DO RIO DE JANEIRO
Aproveitamos a segunda oficina
do Curso de Viabilidade Socioeconômica, do Fórum
de Cooperativismo Popular do Rio de Janeiro, para fazer um jogo
educativo sobre a Rede de Trocas Solidárias usando moeda
própria. O objetivo era introduzir para @s participantes
a teoria e a prática das trocas solidárias, no
contexto de uma oficina centrada na Autogestão. (A primeira
oficina focalizou a produção cooperativa, e a terceira,
a comercialização.) Esta ficha relata o jogo da
2a. oficina (setembro de 1999), que repetimos na 3a. (outubro
de 1999), não mais como jogo porém como primeira
reunião da Rede do RJ. Esta será motivo de outra
ficha em breve.
Passos do jogo:
1. Conversa sobre os objetivos
da Rede no contexto da socioeconomia solidária.
2. Acordo/contrato com base em certos princípios.
3. Criação coletiva da moeda comunitária:
nome, valores de referência.
4. Escolha da Coordenação, Secretaria, Recepcionista.
Definição dos valores a pagar por seu trabalho.
5. Recolha de telefones, fax e correio eletrônico (cel)
de contato. Mapa das demandas e ofertas dos participantes.
6. Feira.
7. Avaliação.
1. Iniciamos com uma conversa
sobre a lógica e as regras do jogo. Definimos a Rede como
uma das vertentes inovadoras da socioeconomia solidária,
uma forma de nós, trabalhadoras e trabalhadores, colocarmos
nossos recursos, capacidades e potenciais a serviço uns
dos outros, e também ganharmos controle sobre o meio simbólico
de viaibilizar trocas mais complexas - a moeda. Portanto, um
fator de empoderamento pessoal e coletivo ao mesmo tempo. Surgiram
logo questões que buscavam resolvar, teórica e
conceitualmente, dúvidas que tratamos de esclarecer, com
base no que aprendemos de outras experiências: como as
da Argentina, Inglaterra e Irlanda.
> Que fazer quando temos que comprar equipamentos ou componentes
no mercado dos reais? Pagamos com reais ou com moeda social?
-- Quem compra um produto ou serviço que envolveu custos
em reais poderá pagar esta parte em reais ou na moeda
social. O desejável, porém, é que o que
vende aceite o pagamento em moeda social, por dois motivos, pelo
menos. Um, para estimular as trocas solidárias no interior
da Rede. O outro, porque ele poderá compensar a "perda"
de reais comprando mais dentro da Rede, inclusive com a renda
disponível em reais aumentada pelo fato de já não
estar gastando reais para responder a diversas das suas necessidades.
> Que é que me dá
direito a receber uma certa quantidade de moeda social antes
de trabalhar, produzir ou vender?
-- A moeda que vamos criar e distribuir entre nós é
diferente das que conhecemos. O valor dela não está
nela própria, mas no trabalho que vamos fazer para produzir
bens, serviços, saberes e depois trocar com o resultado
do trabalho de outros. A moeda enquanto tal não tem valor,
até que comecemos a trocar trabalho com trabalho. Aí,
então, ela vai servir de mediadora destas trocas. Ela
é diferente também porque a ela não está
ligada nenhuma taxa de juros. Por isso não interessa a
ninguém guardá-la, entesourá-la. Interessa,
sim, torcá-la continuamente por bens e serviços
que venham responder as nossas necessidades, pessoais, familiares,
comunitárias, empresariais, e que venham melhorar nossa
qualidade de vida. Esta moeda será sempre um meio, nunca
um fim. Não será inflacionária nem jamis
poderá ser usada para especulação.
> Qual o número mínimo
e máximo de pessoas num grupo da Rede?
-- A experiência mostra que o número mínimo
pode ser 5-6 pessoas, e o máximo em torno de 50. Mais
que isto, só temporariamente, como forma de estimular
e motivar a criação de um novo grupo.
Sugerimos que vivenciássemos
o jogo e buscássemos através dele as respostas
a outras perguntas. Enfatizamos o aspecto de alternativa ao mercado
capitalista que este jogo representa. E a inovação
que significa ganhar controle comunitário sobre nossas
finanças. Este caminho - a Rede de Trocas Solidárias
usando moeda social - é uma vertente promissora do grande
projeto de uma globalização cooperativa e de uma
socioeconomia solidária e responsável.
2. O grupo assumiu conjuntamente
levar à prática estes princípios e perspectivas,
na forma de um acordo verbal coletivo. Comentamos que, na constituição
de um grupo da Rede, é importante também um compromisso
individual por escrito.
3. Distribuimos cartelas em branco,
na forma de 'bilhetes' da mesma cor, 20 por cada participante.
Que nome dar ao Grupo? Porpostas, discussão, votação,
e foi aprovado o nome Mutirão Aquário da Rede de
Trocas Solidárias do RJ. O mesmo fizemos em relação
à moeda: Vitória. Deixamos, porém, de discutir
a equivalência e avaliamos, no final, que este era o momento
de fazê-lo. A equivalência acordada foi que uma Vitória
seria igual a uma hora de trabalho social (manual ou intelectual),
ou a R$ 5,00. Em seguida, decidimos adotar os seguintes valores
em bilhetes: 10 de V$1, 5 de V$5 e 5 de V$10.
4. Ainda como parte da preparação
para a autogestão, escolhemos coordenador, secretário
e recepcionista. Definimos que cada participante pagaria V$ 1
para remunerar essas funções e para gastos administrativos.
5. Para o mapeamento das necessidades
e recursos, pedimos a cada participantes para dar seu nome e
telefone e apresentar suas necessidades. Eles acrescentaram "e
sonhos"! Avaliamos depois que neste momento deveriam também
ser apresentadas as ofertas e recursos, pessoais, familiares
e grupais. Ao longo do jogo, escolhemos uma segunda secretária
para compartilhar a tarefa de anotar, muito cansativa. No momento
da exposição das ofertas/recursos, uma primeira
revelação: os participantes, mesmo os que melhor
se conheciam, descobriu talentos, capacidades e atividades desconhecidas
e até surpreendentes uns para os outros. E já no
meio da exposição, intervinham dizendo "ah,
isto me interessa!", ou "ah, vou precisar de você"!
6. Terminadas as exposições,
iniciamos a feira. Alguns compraram banana-passa das companheiras
da Kit-Fruta, todos começaram negociações
bilaterais. Outra revelação. Como a complementaridade
entre os recursos disponíveis no grupo e as necessidades
era tão grande, estabeleceu-se espontaneamente uma negociação
em dois planos. Um, o do jogo com vitórias, o outro, o
da vida, na forma de acordos para depois de conlcuída
a 2a. Oficina.
7. Na avaliação,
iniciamos constatando que foram feitas diversas transações
durante o jogo. O entusiasmo com a dinâmica do jogo foi
grande. Expressamos o desejo que ele continue na vida real. Vários
consolidamos os acordos para depois de terminado o Curso. E afirmamos
a necessidade de desenvolver esta Rede no contexto do Fórum
de Cooperativismo Popular do RJ. Fui contratado para iniciar
um Mutirão numa das cooperativas ali presentes. Constatamos
que este sistema pode ser estabelecido também nas escolas
infantis, não só com o fim de aprendizagem de socioeconomia,
mas também para viabilizar o atendimento das necessidades,
o aumento da sociabilidade e do bem-estar, e a redução
dos custos entre os próprios alunos.
__________________________________
PALAVRAS-CHAVE: DINHEIRO; SOCIOECONOMIA; SOLIDARIEDADE; ESCAMBO;
TROCA; COMUNIDADE; VALOR; DOMINAÇÃO; PODER; SOCIEDADE;
AUTOGESTÃO; AUTOREGULAÇÃO.
FONTE: PACS - Instituto Políticas
Alternativas para o Cone Sul
Rua Joaquim Silva, 56 - 8º andar - Centro - Rio de Janeiro,
RJ,
Brasil - 20241-110
Tel.: + 55 21 252 03 66 - Fax: + 55 21 232 63 06
pacs@ax.apc.org
www.alternex.com.br/~pacs
AUTOR: Marcos Arruda, coordenador geral do PACS e animador
do Polo de Socioeconomia Solidária, da Aliança
por um Mundo Responsável e Solidário.
Rio, outubro de 1999.
CORTANDO
A AMARRA MONETÁRIA
Marcos Arruda*
O primeiro passo
para qualquer comunidade que busca a auto-sustentação
é estabelecer seu próprio sistema monetário.
O nível de comércio
em qualquer parte do mundo industrializado é determinado
pela quantidade de dinheiro que entra a partir de fora. Sem o
dinheiro não existe suficiente demanda efetiva e até
trabalhos que comunidades locais podiam fazer para si próprios
deixam de ser feitos. E todo dinheiro que entra, tende a sair
outra vez. Quando os termos da troca são desiguais ou
injustos, a tendência é sair sempre mais dinheiro
do que entrou, resultando no empobrecimento relativo da comunidade.
Uma maneira de diminuir a saída
da moeda de outros países que ganhamos com nossas vendas
para fora é produzir no país, cada vez mais, os
bens e serviços que hoje compramos lá fora. O mesmo
em relação a uma comunidade local. Mas com aquela
substituição a fuga de recursos diminui mas não
desaparece. Por isso, o melhor caminho é tornar nossas
transações internas independentes do fluxo de dinheiro
externo usando uma moeda própria para intermediar aquelas
transações. Afinal, a única utilidade da
moeda nacional nas transações entre pessoas que
vivem próximas umas das outras é como medida do
valor do trabalho de um vizinho ou vizinho para mim, comparado
com o valor do trabalho que eu fizer para ele/ela ou qualquer
outro vizinho. Famílias e pequenas comunidades estáveis
de fato não precisam disso. Seus membros fazem coisas
uns para os outros sem guardar um registro, confiando que uns
ajudando os outros, todos acabam se beneficiando. Quando num
sistema todos tiram o equivalente ao que contribuem, temos uma
economia de equivalência. (Quando alguns tiram no sistema
muito mais do que contribuem, temos uma economia não-equivalente.
(Ver Arnold Peter)
Douthwaite cita a comunidade
de A'raim, nas ilhas Aran, como uma economia que funciona na
base da equivalência e da confiança. No passado,
diz ele, toda a sociedade bem sucedida tinha sistemas em que
as pessoas trabalhavam umas para as outras e para o bem comum
sem a intervenção do dinheiro. Eram sistemas de
ajuda mútua, que prevaleceram durante milênios em
comunidades onde a atividade básica era a pequena produção
rural. Os valores da cooperação, reciprocidade,
complementaridade, partilha, solidariedade são os dominantes
nestes espaços. O sistema de ajuda mútua em que
todos se ajudam e se apoiam se chama MEITHEAL em irlandês,
e MUTIRÃO em brasileiro!
Mas em geral as relações econômicas de hoje
são demasiado complexas e transitórias para que
caibam sistemas de troca de trabalho que dispensam um instumento
de medida ou um símbolo mediador, exceto em espaços
reduzidos. Nossas transações intra-comunitárias,
então se tornaram altamente dependentes do fluxo de dinheiro
do mundo exterior, o que nos torna muito vulneráveis caso
o dinheiro de fora venha a faltar.
Desenvolver unidades de medida independentes e suficientes para
facilitar as trocas locais é, pois, um passo essencial
no sentido da crescente auto-suficiência da comunidade.
Centenas de comunidades em diferentes países do mundo
já adotaram tais sistemas de medida, na forma de moedas
locais, também chamadas moedas sociais. A maior parte
delas deriva da que foi desenvolvida por Michael Linton no Vale
de Comox em British Columbia, Canadá no início
dos anos 80. A referência pode ser a moeda nacional, o
tempo de trabalho ou outras unidades como litros de leite, cordadas
de lenha, latas de carvão, etc.
Os sistemas inspirados na experiência de Linton vieram
a chamar-se Sistemas Comerciais de Troca Local (LETS, em inglês,
SELS, em frnacês, STL, em português). Propomos um
termo mais valorativo: STS - Sistemas de Troca Solidária.
Eles tëm a ver com o povo na rua, bairro ou aldeia se reunindo
para identificar suas necessidades e os recursos de que dispõem
enquanto pessoas, famílias e comunidades; depois, reunem-se
outra vez para planejar as formas de troca dos recursos na forma
de escâmbio (troca direta) ou de venda de bens e serviços
uns para os outros. O valor do que têm a oferecem é
definido por um contrato coletivo e relacionado a uma unidade
que servirá de medida de referência, ou moeda social
própria daquela comunidade.
Estes sistemas são flexíveis
e não seguem um modelo único ou rígido.
Alguns componentes utilizados incluem:
- cadernetas de cheque,
- sistema de registro, computadorizado sempre que possível,
dos pagamentos feitos e recebidos por cada pessoa,
- extratos da conta de cada membro enviados regularmente com
periodicidade fixa,
- uma unidade de troca ou moeda ("Reek", em Westport,
Irlanda, "Eco", em Katoomba, Austrália, "Hora
de Ithaca", em Ithaca, NY, EUA, "Brick", em Brixton,
bairro ao sul de Londres, entre outros),
- cadastro de bens e serviços oferecidos pelos membros,
publicado periódicamente,
- informativo periódico com notícias sobre o STS,
- pessoas de fora do sistema podem ser pagas com o cheque ou
o dinheiro social e usá-lo para comprar produtos do sistema,
endossando-os no verso,
- cooperativa para operar o STS (Meitheal na Mart, em Westport),
- a unidade sendo não vinculada à moeda nacional
impede que autoridades fiscais ou de assistência social
tratem os rendimentos em moeda local como se fossem dinheiro
corrente,
- regras para restringir o uso da moeda nacional em trocas intra-STS,
- quanto menor o sistema, mais cedo o poder de compra aportado
por um membro tenderá a retornar a ele,
- a oferta de moeda local, porque é criada por pessoas
que produzem coisas umas para as outras, é sempre adequada
para as suas necessidades,
- em qualquer tempo e em qualquer STS, o total dos créditos
de uns corresponderão ao total dos débitos dos
outros: todos são incentivados a contrair débitos
sem juros,
- uma moeda local nunca pode ser usada como instrumento de poder
e dominação - o sentido do dever para com o coletivo
estimula a prática da equivalência.
***************************************************************************************
Fonte: Richard Douthwaite, 1996,
"Short Circuit: Strengthening Local Economies for Security
in na Unstable World", The Lilliput Press, Dublin.
Palavras-chave: ALTERNATIVAS,
ASSOCIATIVISMO, AUTOGESTÃO, AUTONOMIA, NECESSIDADES, COMUNIDADE,
COMPLEMENTARIDADE, CONSUMO, CONTRATO SOCIAL, COOPERAÇÃO,
DEMOCRACIA, DIVERSIDADE, DINHEIRO, EQUIVALÊNCIA, EMANCIPAÇÃO,
ESCÂMBIO, PODER, SOCIOECONOMIA, SOLIDARIEDADE, TROCA, VALOR,
SOCIEDADE.
FONTE DA FICHA: PACS - Instituto
de Políticas Alternativas para o Cone Sul
Rua Joaquim Silva, 56 - 8o. - 20241-110 Rio de Janeiro - Brasil
Tel/fax 021 252 0366, 232 6306- Cel: pacs@ax.apc.org
* Marcos Arruda é
o Coordenador Geral do PACS e animador do Polo de Socioeconomia
Solidária.
Rio, junho de 1999.
Breve
notícia sobre o Encontro Internacional "Experiências
inovadoras na formação profissional e a criação
de empregos"
Xico Lara*
Do 04 ao 07 de outubro de 1999 realizou-se, no Instituto Pio
XI, em São Paulo, o Encontro sobre "Experiências
inovadoras na formação profissional e criação
de empregos", organizado pela IIEP / Sebastião Neto,
promovido pelo CEEP de São Paulo, financiado pela FINEP
e com apoio da Ação da Cidadania - SP, Centro Estadual
de Educação Tecnológica Paula Souza, Conselho
de Escolas de Trabalhadores, Faculdade de Educação
da USP, e SERT-SP.
Da delegação internacional participaram AGFOL (Mestre
Veneza / Itália), CINTERFOR (Montevideo / Uruguai), ÉMERGENCES
(Montreal / França), INFORCOOP / LEGACOOP (Roma / Itália),
SPF (Paris / França).
A carta de São Paulo, contendo a proposta da construção
de um rede de cooperação e intercâmbio internacional
sobre educação / formação profissional,
geração de trabalho e renda e promoção
de atividades econômicas populares e solidárias,
resume sem o espírito, as discussões e o encaminhamento.
Observam-se mudanças significativas no cenário
mundial, onde se associam uma nova revolução tecnológica,
a globalização dos mercados, uma nova correlação
de forças políticas na esfera internacional e a
predominância do mercado como instituição
social. Desde os anos 80, orientações conservadoras
e neoliberais informam às políticas dos governos
da maioria dos países capitalistas. No Brasil, contrariando
as vitórias populares obtidas na Constituição
de 88, as conseqüências desse modelo de corte neoliberal
são visíveis: a estagnação econômica,
o desemprego, a desregulamentação das relações
de trabalho e a sua precarização, e a exclusão
crescente de jovens e adultos do mundo do trabalho e da cidadania.
Historicamente, o movimento social e popular tem buscado formas
alternativas de geração de trabalho e renda e novos
modos de organização sócio-econômica,
instituindo uma sociabilidade com base na solidariedade, na cooperação,
auto-organização e auto-gestão.
Associações de trabalhadores, cooperativas, empresas
sociais e empresas auto-gestionárias constituem-se como
possível alternativa mesmo que parcial e insuficiente
de enfrentamento da crise do mundo do trabalho não só
nos países periféricos, como também nos
países ricos. Nesse contexto ganha relevo o papel da educação
/ formação profissional e de uma legislação
de proteção social, como parte da luta maior pelo
direito ao trabalho e condições de vida dignas
para todos.
Para discutir os desafios dessas alternativas de sobrevivência
e iniciativas de formação profissional, encontrar
formas de articulação das experiências populares
em curso no país que se unam a todas as iniciativas políticas
e sociais, visando resistir e se contrapor ao processo avassalador
da economia de mercado que exclui a dimensão humana, reuniram-se
em São Paulo, nos dias 4, 5, 6 e 7 de outubro de 1999,
representantes de movimentos populares, ong's, sindicatos, instituições
de educação / formação profissional,
instituições governamentais e universidades, no
país, e representantes de instituições internacionais
que desenvolvem atividades e experiências no campo da formação
profissional, cooperativismo e organização popular.
Os diferentes grupos apontaram para a necessidade de consolidação
do diálogo, intercâmbio e cooperação
entre as iniciativas brasileiras e internacionais que apontam
na mesma direção. No decorrer dos trabalhos foram
indicados pontos positivos das experiências e empreendimentos
sociais em curso. Foram, também, expressas algumas preocupações
que sinalizam a necessidade de se aprofundar a discussão
sobre a educação cidadã e o trabalho em
cooperação.
Com essa perspectiva, decidiu-se pela construção
de uma rede internacional.
*Educador - CAPINA
Quem
paga a conta?
Quatro histórias sobre Globalização
e Ajuste Macroeconômico
1. GLOBALIZAÇÃO
NEOLIBERAL -- Ahn Gun
Jun trabalha 10h por dia na fábrica
da Hyunday Motors, na Coréia do Sul, instalando aquecedores
numa torrente
infinita de estruturas de carros. Com sua mulher e seu filho
de seis anos,
ele paga $ 30 por mês por um apartamento de três
quartos. Ele recebe um
salário de $ 800 por mês, mas tem seguro de saúde
e a matrícula escolar do
filho cobertos pela empresa. Esta promete pagar também
metade da matrículo
anual do filho na universidade. Estas facilidades foram conquistadas
através de longas lutas sindicais na Coréia do
Sul. Agora Ahn está ameaçado
de demissão. "A empresa precisa modernizar-se para
enfrentar a competição
internacional," justifica Chung Mong Gyn, presidente da
Hyunday. E explica:
"A Coréia é como um barco num oceano agitado.
Há 10 pessoas a bordo. Nem
todas podem sobreviver. Temos que lançar duas ao mar -
uma condição
necessária se as empresas coreanas quiserem se reestruturar
e tornar-se
eficientes no futuro." Ahn comenta: "Se tenho que perder
o meu emprego,
perco minha casa, meus vizinhos, meus amigos - praticamente tudo
que tenho
na vida. Se o sindicato convocar, vou para a rua em protesto.
Não tenho
escolha. Se for demitido, vou tentar trabalhar como motorista
de táxi.
Prefiro isto a me suicidar. Mas o risco de perder meu emprego
é tão
aterrorizante que não posso excluir a hipótese
de suicídio." Entre a crise
de 1997 e abril de 98, 25 coreanos se suicidavam por dia, em
média, às
vezes famílias inteiras! A criminalidade aumentou. Os
roubos aumentaram 50%
nos dois primeiros meses de 98, muitos feitos por pessoas que
nunca haviam
roubado antes, cometendo agora o que lá estão chamando
de "crimes FMI de
sobrevivência". [Fonte: International Herald Tribune,
19/5/98]
2. AJUSTE ESTRUTURAL: DEMISSÕES,
CORTES NA PREVIDÊNCIA, SEGURO-DESEMPREGO
PRECÁRIO - José
Luciano, ex-funcionário da Verolme, grande estaleiro do
Rio
e Janeiro, quatro filhos, foi demitido quando recebia um salário
de R$ 545
por mês. Hoje ele recebe R$ 150 mensais e faz biscates
de pedreiro em Angra
dos Reis, para manter sua família. O dinheiro não
dá para alimentar a
família e pagar todas as contas. Ele pesca para completar
a alimentação. Há
nove meses está inadimplente da Caixa Econômica
Federal. Sua casa está indo
a leilão. [Fonte: O Globo, 15/8/99]
3. AJUSTE ESTRUTURAL: CONSEQÜÊNCIAS
DA LIBERALIZAÇÃO COMERCIAL
Margarida tem sete filhos, e trabalha como quebradeira de coco
babaçu no sul do
Maranhão, junto com os quatro maiores, ganhando R$ 3 por
dia para quebrar
mil cocos. Perdeu o emprego de um dia para o outro, juntamente
com os
filhos e várias colegas de trabalho. Ela não sabia
que o Governo Federal
havia liberado as tarifas de importação de óleos
comestíveis vindos da
Europa.
4. AJUSTE ESTRUTURAL: CORTE
NOS GASTOS PÚBLICOS
Durante tres anos os Apinajé
que vivem nos arredores de Tocantinópolis, Goiás,
fizeram greve de reprodução, algo como um suicídio
étnico. Quando visitei a aldeia percebi um vazio na escala
das gerações de crianças daquele povo. Eles
protestavam contra a resistência de sucessivos governos
em demarcar suas terras e libertá-los dos conflitos com
invasores. Os governos têm justificado o adiamento crônico
da demarcação com base no ajuste estrutural e nos
conseqüentes cortes de gastos sociais no orçamento.
Precisam ampliar o disponível para pagar em dia a dívida
aos credores externos e internos, os grandes bancos.
PALAVRAS-CHAVE: GLOBALIZAÇÃO,
AJUSTE, COMÉRCIO INTERNACIONAL,
LIBERALIZAÇÃO, DESEMPREGO, DOMINAÇÃO,
SOCIEDADE, .
FONTE: PACS - Instituto Políticas Alternativas
para o Cone Sul
Rua Joaquim Silva, 56 - 8º andar - Centro - Rio de Janeiro,
RJ, Brasil -
20241-110
Tel.: 55 21 252 03 66 - Fax: 55 21 232 63 06 CEl: pacs@ax.apc.org
AUTOR: Marcos Arruda, coordenador geral do PACS, co-animador
do Polo de
Socioeconomia Solidária, da Aliança por um Mundo
Responsável e Solidário e
membro do Instituto Transnacional (Amsterdam).
Rio, 13 dezembro 1999.
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