ALIANÇA POR UM MUNDO RESPONSÁVEL E SOLIDÁRIO

POLO DE SOCIOECONOMIA SOLIDÁRIA 

 

Fichas Pacs-DPH

 


Novo! Quem paga a conta?
Quatro histórias sobre Globalização e Ajuste Macroeconômico
   
 É possível pensar alternativas à política social neoliberal?
   
 Implantando a Rede de Trocas Solidárias do Rio de Janeiro
   
 Novo! Socioeconomia Solidària e o Estado-Nação
   
   
Encontro Internacional "Experiências inovadoras na formação Profissional e a criação de empregos"
   
   Alternativas à Globalização Neoliberal
   
   Cortanto a Amarra Monetária
   
   Criando a Rede de Trocas Solidárias do Rio de Janeiro

 

 

 

    IMPLANTANDO A REDE DE TROCAS SOLIDÁRIAS
    DO RIO DE JANEIRO

    (Pressupõe a leitura da ficha de out/99)

    Na terceira oficina do Curso de Viabilidade Socioeconômica, do Fórum de Cooperativismo Popular do Rio de Janeiro, organizamos a seção de fundação do primeiro grupo da Rede de Trocas Solidárias usando moeda própria. Adotamos os seguintes passos:

    1. Conversa sobre a proposta de Carta de Princípios da Rede. Emendas e aprovação.
    2. Criação coletiva da moeda comunitária da RTS: nome, valores de referência.
    3. Escolha da Coordenação, Secretaria, Recepcionista. Definição dos valores a pagar por seu trabalho.
    4. Distribuição da versão preliminar do Catálogo e diretório dos participantes. Atualização das demandas e ofertas dos participantes. Recolha de telefones, fax e correio eletrônico (cel) de contato.
    5. Marcação das próximas reuniões e feiras.
    6. Avaliação.

    1. Rediscutimos a lógica e as regras do jogo. Fizemos modificações na proposta e aprovamos uma versão que passou a vigorar para o período fixado até fim de fevereiro de 2000. Nesta data, faremos uma avaliação da experiência e redefiniremos os rumos e os termos de compromisso, corrigindo e inovando onde for necessário. A Carta de Princípios está disponível no PACS (pacs@ax.apc.org, ruthrj@hotmail.com)

    2. Fizemos nova escolha de nome para a moeda e para o grupo. Adotamos como moeda o tupi, com o mesmo valor da vitória (do jogo da segunda oficina): 1 tupi equivale a uma hora de trabalho social, ou a R$ 5,00. Decidimos que faríamos um acompanhamento das transações realizadas com tupis ou diretamente. Para isto a secretaria circulará folhas de registro de transações, em que se anotará o valor delas, as pessoas envolvidas e a data. As notas serão válidas para dez transações, e receberão o nome do participante e de todos os que as receberem em troca de venda de bens ou serviços. Caberá ao Ecobanco registrar as transações e publicar os balanços. Também renomeamos o grupo: se chama agora Mutirão Quilombo, e será o primeiro grupo da Rede, com participantes vindos de diversas bairros e até municípios do estado. Funcionará como 'berçário' para a formação de multiplicadores e coordenadores de outros grupos ou mutirões com base geográfica definida.

    3. Foram escolhidos Robson e Jurema como coordenador e suplente, Denise e Zeferino como secretária e suplente, Maurício e Luciana como recepcionistas e Robson (do Jacarezinho) como tesoureiro. Ficou acertada a remuneração de 1 tupi para cada um pelo trabalho que fizer na reunião/feira e entre reuniões. Recolhemos 1 tupi de cada participante, pagamos o coordenador, a secretária e o recepcionista, e restaram 14 tupis em caixa para gastos de gestão.

    4. O PACS havia transformado o registro das ofertas e demandas apresentadas na 2a. Oficina em catálogo e diretório, que foi distribuído na ocasião. Refizemos o mapa das ofertas e demandas, dado que tínhamos participantes que não estavam presentes no jogo da 2a. Oficina.

    5. Acertamos de fazer a próxima reunião/feira em seguida à reunião mensal do FCP, dia 5/10/99. E a seguinte seria dia 16/10/99. Consolidamos a divisão de trabalhos preparatórios. O PACS ficou responsável pela impressão das notas de tupis e tupimirins (centavos de tupi).

    6. Na avaliação, os participantes sublinharam o aspecto inovativo da RTS, tanto no estímulo à criatividade dos participantes, quanto na comercialização dos seus produtos, quanto na autogestão.

    EVOLUÇÃO ATÉ NOVEMBRO DE 1999

    Ecobanco - O PACS tornou-se a sede provisória do Ecobanco. O objetivo do Ecobanco é administrar a moeda comunitária: imprimi-la, definir as quantidades em circulação, gerir a circulação, substituir as notas utilizadas para 10 transações por outras novas e produzir o balanço bi ou trimensal. O PACS é só o agente executivo, as decisões são tomadas pela Coordenação. Na primeira reunião da Coordenação, em 15/10/99, ficou decidido que os novos membros receberiam 45 tupis cada um por um período de prova, até sua integração definitiva ao grupo. Os membros receberam um total de 91 tupis, sendo 6 tupis em tupimirins.

    Reunião-Feira de 5/10/99 - Ocorreu após a reunião ordinária do FCP, que teve como tema principal a discussão sobre microcrédito solidário com o companheiro boliviano Pancho Otero. O relatório desta reunião foi distribuído a todos os participantes do FCP e está disponível no PACS. Grande parte dos participantes tiveram que sair ao fim da reunião do FCP. Menos de 10 membros do Mutirão ficaram para a feira. Assim mesmo diversas transações foram realizadas, de frutas secas, a microalga spirulina (suplemento alimentar rico em proteínas e outros nutrientes), roupas e alguns serviços. Tivemos também novas adesões.

    Reunião-Feira de 16/10/99 - Foi realizada na sede do PACS, entre 10 e 13h do sábado 16. Robson, o Coordenador, fez uma breve apresentação sobre a RTS, o Mutirão e o tupi. Foram circulados a Declaração de Princípios, a ficha cadastral e o Termo de Compromisso (todos disponíveis no PACS). Fizemos um mutirão de trabalho para numerar as notas já impressas. Distribuimos as notas pelos participantes, tirando de circulação os tupis velhos. Depois demos a cada novo membro (inclusive uma criança de 9 anos!) 45 tupis. A pergunta recorrente era:

    -- "Mas como posso receber este dinheiro sem ter feito nada? De onde ele vem?"
    -- O Mutirão Quilombo da RTS faz um gesto de confiança dando a você esta quantia em tupis. Mas os tupis só passam a ter valor no momento em que você os utiliza para comprar algum bem ou serviço. Antes disso é uma simples folha de papel colorido, bonita mas sem valor. O valor quem dá é você, comprando dos outros ou vendendo sua própria produção. Eis uma das principais diferenças dos dinheiros oficiais. Este dinheiro simboliza bens e serviços que a gente produz realmente. E como não tem juros associados a ele, a você não interessa guardá-lo, mas sim fazê-lo circular, o que significa maior atividade econômica, mais necessidades satisfeitas e maior bem estar para toda a Rede.

    Todos os participantes presentes assinaram seus Termos de Compromisso e aderiram à Carta de Princípios. A feira gerou uma intensa atividade de trocas, incluindo biscoitos amanteigados, a microalga spirulina, roupas, livros, árvores de Natal de croché, e alguns serviços. Pablo, o menino que trouxe os biscoitos, vendeu quase todos antes mesmo de começada a feira. Robson e Lina acertaram uma troca de aulas, ele, de computação, ela, de inglês.

    Seminário de Capacitação e Integração, Buenos Aires - A RTS decidiu enviar Robson e Marcos para participarem deste seminário, entre 28/11 e 3/12/99, que será ministrado por Heloisa Primavera, Carlos Del Valle, Istvan Karl (Argentina) e John Fernando Sandoval (Colômbia), animadores da Rede Global de Trocas. Robson e Marcos farão uma ficha sobre o seminário.

    PALAVRAS-CHAVE: DINHEIRO; SOCIOECONOMIA; SOLIDARIEDADE; ESCAMBO; TROCA; COMUNIDADE; VALOR; DOMINAÇÃO; PODER; SOCIEDADE; AUTOGESTÃO; AUTOREGULAÇÃO.

    FONTE: PACS - Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul
    Rua Joaquim Silva, 56 - 8º andar - Centro - Rio de Janeiro, RJ, Brasil -
    20241-110
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    e-mail: pacs@alternex.com.br

    AUTOR: Marcos Arruda, coordenador geral do PACS e animador do Polo de Socioeconomia Solidária, da Aliança por um Mundo Responsável e Solidário.
    Rio, 3 novembro 1999


     

    SOCIOECONOMIA SOLIDÁRIA E O ESTADO-NAÇÃO

    *Marcos Arruda - TNI/PACS

    Em tempos de globalização neoliberal, quando o mercado livre é de novo apresentado ao mundo como o único e mais justo distribuidor de recursos, investimentos e riqueza, o Estado-Nação é visto como um obstáculo para acumulação e a reprodução do capital. As elites corporativas e os diferentes tons ideológicos de políticos nos dois hemisférios, a começar por Margaret Thatcher e Ronald Reagan, têm ocupado o Estado com a finalidade de transferir para o setor privado patrimônio público e também diversas obrigações e mandatos do Estado. Os serviços públicos têm sido rapidamente convertidos em mercadoria, e o poder de compra da população hoje, mais que nunca antes, é a cruel condição da sobrevivência humana. Paradoxalmente, no entanto, o Estado-Nação, sobretudo aquele vinculado aos interesses da classe capitalista, continua atuando, com maior ou menos vigor, como protetor e benfeitor daqueles interesses.

    No contexto do conflito hoje quase universal entre capital e trabalho, o Estado-Nação e as instituições multilaterais têm sido firmes aliadas do capital e, neste sentido, desempenham um papel aparentemente indispensável, do ponto-de-vista dos próprios capitalistas neoliberais. Num mundo de abundância para poucos e escassez para bilhões, isto é simplesmente inaceitável. Afinal, o Estado-Nacão está desaparecendo à medida que a globalização neoliberal avança? Que Estado podemos visualizar, para que Nação? Na perspectiva de uma socioeconomia alternativa, qual poderia ser o papel do Estado-Nação?

1. Estado-Nação como uma criação histórica

    Na História a existência do Estado está relacionada – direta ou indiretamente – com o modo de produção dominante. É uma superestrutura que repousa sobre a estrutura socioeconômica. Muda conforme ocorrem mudanças nessa estrututura. Com o atual estágio da globalização, está mudando outra vez, e é a classe hegemônica que já controla o Estado, aquela que também está controlando a mudança. Na minha opinião, o Estado não tende a desaparecer enquanto a globalização neoliberal progride. O que está desaparecendo é o Estado do bem estar, o Estado social-democrático e, talvez, não por muito tempo, se afinal predominarem as propostas neokeynesianas que estão emergindo do Banco Mundial.

    Redes de seguridade social, políticas de investimento social, programas oficiais de alívio à pobreza, estas são algumas formas de intervenção estatal na economia que têm a ver com o fracasso da economia privatizada de “mercado” atender às necessidades de todos os cidadãos e cidadãs, e distribuir com eqüidade os recursos escassos do Planeta em benefício da sociedade como um todo. No hemisfério Sul, a necessidade de tais reformas e programas é uma manifestação do fracasso das políticas de ajuste estrutural de preencherem suas alegadas finalidades de gerar eqüidade econômica e satisfação social, como resultado da estabilização da economia e da retomada do crescimento econômico. As reformas “de mercado” são na verdade anti-mercado, na medida em que estimulam a formação de monopólios, a desregulação, e a concentração de renda e de riqueza. Qualquer intervenção estatal neste contexto ignora, e na verdade reforça, os fatores de iniqüidade e empobrecimento, e podem ser de natureza apenas compensatória. São concebidas para adiar a explosão das contradições internas do padrão capitalista de produção e de consumo.

2. O Estado-Nação está em crise com a globalização neoliberal

    O Estado-Nação vai continuar a estremecer enquanto persistir a globalização neoliberal. A lógica das reformas neoliberais é não eliminar o Estado, mas adaptá-lo ao papel que os capitalistas do “livre mercado” querem e precisam que ele desempenhe:

    1) como amaciador e, quando necessário, agente repressivo do protesto social;

    2) como garantia da liberdade de mercado (que na realidade significa liberdade para o capital e subordinação para a força de trabalho e para as nações menos desenvolvidas;

    3) como subsidiador do setor privado mediante fundos públicos e contratos facilitados; e

    4) como fator de legitimação da globalização subordinada das economias menos industrializadas.

    A evidência de que as políticas e reformas neoliberais têm sido fatores de empobrecimento nos países do Sul, assim como nos do Norte, está forçando mudanças de discurso, e provavelmente também de políticas. O capitalismo se apressa em apresentar suas contradições e perversidades sistêmicas como se fossem ‘acidentes’, problemas temporários que devem ser atribuídos a quaisquer fatores que não sua própria natureza e estrutura. Chamo a natureza do capitalismo de crematística (= que visa apenas a acumulação de riqueza material), em vez de socioeconômica (= que visa a gestão da casa e dos seus habitantes). Em ciclos intervencionistas, quando surge uma crise, os capitalistas a atribuem à falta de suficiente liberdade de mercado, e pressionam por liberalização. Em ciclos liberais, atribuem as crises à falta de regulação estatal e de políticas públicas mais eficazes. Assim, tentam salvar o capitalismo de ser identificado como o verdadeiro fator determinante das enfermidades da socioeconomia. Atualmente estamos vivendo o fim de um ciclo liberal. A questão é quando e como os povos vão finalmente agir para romper com o próprio capitalismo e com o Estado capitalista.

    Outras vias para o Estado-Nação existem para aqueles que acreditam que o capitalismo não é o único modelo viável de organização da socioeconomia, e que a globalização neoliberal, liderada pelas empresas transnacionais, não é o único tipo viável de globalização a que podemos aspirar.

3. O Desafio da Democratização do Estado-Nação

    A meu ver, o Estado-Nação será uma realidade enquanto a Nação existir. E a Nação está relacionada com pelo menos três elementos que são, e por muito tempo continuarão a ser parte da existência e aspiração da humanidade contemporânea: a territorialidade, a identidade e a soberania popular. O papel-chave de um Estado democratizado é ser a garantia do pleno respeito pelos direitos humanos – que incluem os direitos econômicos, sociais, políticos e culturais de cada um e de todos os cidadãos e cidadãs, assim como o direito do conjunto da Nação à soberania. Neste sentido, a Declaração Universal (e os documentos internacionais que vieram complementá-la) deveriam servir de embasamento para legislação nacional e internacional que inclua estes aspectos e dimensões.

    Contudo, enquanto continuar o divórcio capital x trabalho, o Estado-Nação vai continuar a ser necessário, pelo menos no modo como o conhecemos hoje. E uma das mais graves enfermidades resultantes de tal divórcio é o fato de os trabalhador estar individual e coletivamente impedido de possuir, controlar e administrar os bens e recursos produtivos; e ser tratado como “fator de produção”, “consumidor”, e “contribuinte”, sem identidade, uniforme, isolado de todo outro contexto além de emprego, da loja e do ato de pagar impostos. A História mostra que as formas de socialismo centradas no Estado não contribuíram para a superação daquele divórcio, conforme o prometido. Assim, a luta continua em busca de caminhos novos e eficazes de superação daquele divórcio. A riqueza não é produzida apenas pelos proprietários do capital nem pela tecnologia, mas essencialmente pelos trabalhadores e trabalhadoras – o conhecimento e trabalho coletivo daqueles e daqueles que participam da sua criação, aos quais Marx chama de indivíduo social.

    Algumas das condições para que os ganhos de produtividade sejam justamente distribuídos e democratizados, beneficiando assim toda a sociedade, e não apenas uns poucos, são:

    1) que os trabalhadores se empoderem no plano econômico (ganhando o controle cooperativo sobre os meios de produzir a riqueza e o conhecimento) a fim de se empoderarem também politicamente; e

    2) um forte Estado democratizado, plenamente controlado pela sociedade e posto ao seu serviço.

4. Caminhos para a Democratização do Estado-Nação

    Em muitos países, partidos populares e democráticos têm ocupado governos locais e estaduais e estão desenvolvendo experiências criativas de democratização do Estado. No Brasil, partidos progressistas detêm o controle de centenas de governos municipais e seis governos estaduais. No Uruguai, um vigoroso movimento cooperativo se desenvolve e as experiências de governos locais criaram um rico acúmulo de lições sobre como democratizar o Estado. Ao ponto de as forças progressistas de ambas estas Nações terem chegado muito perto de vencer as eleições federais. Tendências semelhantes são encontradas noutros países dos dois hemisférios.

    O desafio é complexo:

    1) Como implementar uma plataforma governamental que combina uma abordagem reformista (o que é possível) com a integridade a respeito dos objetivos estratégicos de transformação (o que é desejável)?

    2) Como fazer que as políticas e das iniciativas governamentais não sejam um fim nelas mesmas, mas sim meios para criar espaço e oportunidade para que a sociedade como um todo se empodere e se torne o sujeito político dominante?

    3) Como “governar para todos” e, ao mesmo tempo, continuar a ser leal e sensível às necessidades, interesses e aspirações das amplas massas da população?

    4) Como coordenar o desenvolvimento social e humano do país e, ao mesmo tempo, realizar seu papel de educador da sociedade (no sentido gramsciano) para o fim último do empoderamento das pessoas, comunidades e da não para o desenvolvimento autogestionário?

    5) Como fortalecer o sentido de auto-estima e auto-identidade da Nação, criando simultaneamente pontes e estabelecendo laços de verdadeira cooperação, complementaridade e solidariedade com outras Nações, contribuindo assim para tornar realidade uma globalização que seja cooperativa, e não competitiva?

    6) Como instilar este mesmo espírito e objetivos nas instituições multilaterais

    Na minha opinião, as contradições e as oportunidades geradas pela globalização neoliberais tendem a levar o mundo para um momento de rutura: experiências de um mundo que está sendo reconfigurado de baixo para cima multiplicam-se por toda parte, através da apreciação do valor do trabalho e da capacidade criativa de cada indivíduo, assim como da diversidade humana – a que chamo noodiversidade: cada pessoa, com sua subjetividade e singularidade, cada comunidade, cada grupo social (incluindo grupos étnicos, grupos de gênero, grupos indígenas), cada Nação. Este é o caminho para uma forma cooperativa e fraterna de globalização.

    O empoderamento econômico e político de cada um e de todos os indivíduos, comunidades e grupos sociais é o verdadeiro conteúdo de uma genuína democracia e de um genuíno socialismo. Nesta perspectiva, as Nações podem ser reconcebidas como unanimidades (almas juntas, um projeto em comum no sentido de objetivos compartilhados) na diversidade (não às custas da diversidade). Ao mesmo tempo, podem ser concebidas como noodiversidades coletivas em busca de unanimidade para fortalecer o desenvolvimento dos seus potenciais sempre mais além. O objetivo último do Estado: ser um orquestrador da diversidade humana e socioeconômica e um catalizador para o estabelecimento de unidades sempre renovadas na diversidade. O mesmo pode ser postulado para as instituições multilaterais e para um eventual Estado planetário, com respeito às sociedades e Estados locais e nacionais.

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    PALAVRAS-CHAVE: Território, sociedade civil, cidadania, Estado, desenvolvimento local, regulação, local-global, neoliberalismo, estatismo, social-democracia, instituições internacionais, agências multilaterais.

    FONTES:: PACS - Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul
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    *NOTE: Marcos Arruda é o coordenador geral do PACS e um dos animadores do Polo de Socioeconomia Solidária. Resumo de sua apresentação no Festival do 25o aniversário do Instituto Transnacional. Amsterdam, novembro 1999.



    ALTERNATIVAS À GLOBALIZAÇÃO NEOLIBERAL

    No início dos anos 70, Henry Kissinger era Secretário de Estado do governo Nixon. Eram tempos da Comissão Trilateral, que reunia gente poderosa (políticos e grandes empresários e banqueiros) da América do Norte, Europa e Japão, para discutir como partilhar o mundo entre eles. Tomando café com o Ministro de Relações Exteriores do Chile, Gabriel Valdéz, ouviu deste o comentário de que os países do Sul precisavam ter suas necessidades e interesses reconhecidos pelo mundo rico. Ao que Kissinger respondeu algo assim: 'é preciso que vocês entendam de uma vez por todas que para nós o mundo só existem do equador para cima'.

    Lendo os comentários de Kissinger sobre a globalização e as desigualdades, em palestra recente em Dublin, podemos perguntar se se trata da mesma pessoa, ou de mais uma que só muda de mentalidade e discurso depois que saiu do poder. "O desafio básico é que o que se chama de globalização é na verdade outro nome para a posição dominante dos Estados Unidos", diz ele. "Num sentido importante, o próprio sucesso dos EUA é que é o problema." Reconhece, assim, que a globalização assimétrica que predomina hoje é um jogo em que um país globaliza (na voz ativa), e o resto do mundo é globalizado (na voz passiva)... Mas se olharmos por trás deste fenômeno, identificamos uma realidade ainda mais atroz: o "país" Estados Unidos é menos real do que os interesses dos grandes grupos transnacionais privados, de base norte-americana, cujos interesses os sucessivos governos dos EUA representam e defendem. Portanto, se trata de subordinar as economias e populações do mundo aos interesses daqueles grupos.

    O caso do Brasil é ilustrativo. Chamam-nos de "país emergente". Mas quem está emergindo no Brasil são os grupos transnacionais e as elites brasileiras que estão ao seu serviço. Gonçalves (1994), comparando a abertura dos EUA ao capital estrangeiro com a do Brasil, mostra que a globalização (entendida como ocupação da economia nacional por grupos transnacionais) da indústria brasileira era muito maior no Brasil do que nos EUA. Aqui, a participação de empresas transnacionais era de 32% da produção, contra 11% nos EUA, e de 23% dos empregos, contra apenas 7% nos EUA. Os coeficientes brasileiros só eram superados, no hemisfério Norte, pela Bélgica e Canadá, e no Sul pela Malásia, Cingapura e Venezuela. Mas isto foi antes do período Fernando H. Cardoso que, nos últimos cinco anos, tem acelerado a ocupação dos diversos setores da economia brasileira como nenhum outro governo jamais fez antes, inclusive o setor financeiro e de serviços.

    Kissinger, em Dublin, continua: "O sistema econômico global favorece, acima de tudo, os países desenvolvidos; os países em desenvolvimento ficam para trás e não somente por causa de políticas inadequadas da parte deles." O argumento que o Banco Mundial e o FMI têm usado para explicar o fracasso do ajuste estrutural tutorado por eles em países como a Rússia, o México, a Tailândia, a Malásia, etc., é que os governos destes países não adotaram adequadamente as políticas recomendadas por aquelas instituições. Kissinger não está convencido disso, pois aponta para a tendência do sistema de produzir crises financeiras cada vez mais severas e globais, sem que a obediência às prescrições logre imunizar os países, citando a Argentina e, 'até certo ponto', o Brasil. Sabemos que aqueles prescrições vêm do FMI e são, invariavelmente, a austeridade, a liberalização dos mercados, inclusive financeiros, a emasculação do poder regulador do Estado, a recessão e, em conseqüência, o aumento da brecha social e da instabilidade política. Kissinger sugere as seguintes medidas para enfrentar estes problemas:

  • alguma reconciliação entre o mercado e o que é social e politicamente suportável;
  • algum acordo sobre a relação entre a equidade e o capital especulativo;
  • algum meio de resolver as crises mitigando a austeridade;
  • políticas comerciais que levem em conta as preocupações dos países em desenvolvimento com seus problemas especiais (recado para a OMC e para os governos do Sul);
  • o reconhecimento pelos EUA de que suas políticas fiscais e monetárias afetam não só seu interesse nacional, mas o sistema global.

    O economista-chefe do Banco Mundial, Joseph Stilitz, também descortina a necessidade de caminhos de superação da globalização monopolista, pelo menos no discurso. "O crescimento requer capital, este último busca o maior retorno possível com o menor risco e os EUA oferecem a melhor relação entre risco e retorno... O dinheiro vai aonde é mais produtivo. E isso não significa a Rússia, o Brasil ou a Nigéria, significa Nova York ou a Califórnia." No mundo dominado pelo capital financeiro, o dinheiro na verdade vai aonde é mais rentável. E, como o movimento das finanças internacionais em clima de globalização neoliberal é cada vez mais desregulado (ver o Acordo Multilateral de Investimentos, hoje na agenda da OMC, e como sua lógica já está incorporada em acordos regionais, como a ANALC [NAFTA], e bilaterais), o dinheiro migra incessantemente, alternando entre mercados altamente rentáveis, como os 'emergentes' em momentos de relativa estabilidade, e mercados mais seguros, embora menos rentáveis, como os de países como EUA, Suíça, Inglaterra.

    As previsões do economista francês François Chesnais (1998: 86) são sombrias: "A partir de duas décadas de experiência de um capitalismo triunfante, a perspectiva certa de uma recessão mundial aguda, durante a qual o crescimento do produto bruto mundial caia perto de zero, como a forte possibilidade de uma crise mundial muito mais grave, provocada por uma quebra em Wall Street, vão pôr de novo na ordem do dia a questão do custo social e humano exorbitante do capitalismo e, portanto, da necessidade de procurar meios de superá-lo."

    Até mesmo em Paul Volker, ex-presidente do Federal Reserve Bank dos Estados Unidos , fica evidente a sensação de urgência na busca de mudanças profundas no sistema da globalização monopolista: "Os problemas que parecem ter tanta força hoje são sistêmicos - surgem do interior do próprio mecanismo de funcionamento do capitalismo financeiro global... Um ano atrás, expressar essa visão seria suficiente para questionar minha fidelidade a tudo que é bom e sagrado - a santidade dos mercados e sua infalível capacidade de se ajustar, a liberdade dos fluxos de capital e do comércio - talvez mesmo a democracia propriamente dita... A questão básica é tão antiga quanto o capitalismo financeiro em si. O sucesso cria confiança e leva a um excesso de autoconfiança. A ganância sobrepõe-se à prudência. Então, algo inesperado acontece e levanta dúvidas. O medo se torna contagioso. As autodefesas individuais ajudam a espalhar o mal-estar. E se os excessos se espalharem demais, a crise financeira torna-se uma crise econômica, na qual a maior parte dos mercados emergentes se encontra hoje" (grifos meus).

    Destas proposições podemos depreender que o maior risco não está situado em um ou mais países 'emergentes'. O maior risco está no próprio sistema da globalização monopolista e neoliberal. Volker usa palavras que manifestam não apenas uma ideologia, mas uma religião do capital. E as verdades 'sacrossantas' desta religião do capital estão se quebrando como a estátua de Baal em Nabucco, de Verdi! Alguns dos mais ferrenhos protagonistas do sistema estão hoje alertando para aquele risco e clamando por mudanças, seja para o preservar mais equitativa e, portanto, equilibradamente, seja para transformar radicalmente o sistema.

    Entre os movimentos que se organizam globalmente para educar, organizar e pressionar por uma globalização alternativa estão o ATTAC, Associação para uma Taxação das Transações financeiras para Apoio aos Cidadãos, originado na França (um nome bem francês...), que está congregando cidadãs e cidadãos de dezenas de países do mundo em favor não só de taxação e regulação das transações financeiras, mas de uma profunda reforma do sistema financeiro internacional e das instituições de Bretton Woods; o Coletivo Cidadão contra a OMC, da França; a Aliança Social Continental para combater a proposta norte-americana de uma Associação de Livre Comércio das Américas e propor uma autêntica integração dos povos; 50 Anos Bastam, originado nos EUA, que luta por reformas profundas nas instituições multilaterais; e a Aliança por um Mundo Responsável e Solidária, que articula cidadãs e cidadãos de mais de 100 países a fim de elaborar propostas e reforçar práticas inovadoras, cujo conteúdo já encarna a visão de um novo milênio marcado por uma cultura da co-responsabilidade, da eqüidade, da ética, da sustentabilidade social e ambiental, e da solidariedade (ver o sítio web www.echo.org).

    Bibliografia: Rubens Ricupero, "Globalização com sotaque diferente", Folha de S.Paulo, 24/10/99. Reinaldo Gonçalves, "Ô Abre Alas - A Nova Inserção do Brasil na Economia Mundial", Relume-Dumará, Rio de Janeiro. François Chesnais, "Tobin or not Tobin? Une taxe internationale sur le capital", L'Esprit Frappeur, Paris. Paul Volker, Gazeta Mercantil, 19/10/98, São Paulo

    PALAVRAS-CHAVE: GLOBALIZAÇÃO, DINHEIRO; SOCIOECONOMIA; SOLIDARIEDADE; DOMINAÇÃO; PODER; SOCIEDADE; REGULAÇÃO, POLÍTICA FISCAL.

    FONTE: PACS - Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul
    Rua Joaquim Silva, 56 - 8º andar - Centro - Rio de Janeiro, RJ,
    Brasil - 20241-110
    Tel.: 55 21 252 03 66 - Fax: 55 21 232 63 06 CEl: pacs@ax.apc.org


    AUTOR: Marcos Arruda, coordenador geral do PACS, co-animador do Polo de Socioeconomia Solidária, da Aliança por um Mundo Responsável e Solidário e membro do Instituto Transnacional (Amsterdam).
    Rio, 6 novembro 1999.


     

    CRIANDO A REDE DE TROCAS SOLIDÁRIAS DO RIO DE JANEIRO

    Aproveitamos a segunda oficina do Curso de Viabilidade Socioeconômica, do Fórum de Cooperativismo Popular do Rio de Janeiro, para fazer um jogo educativo sobre a Rede de Trocas Solidárias usando moeda própria. O objetivo era introduzir para @s participantes a teoria e a prática das trocas solidárias, no contexto de uma oficina centrada na Autogestão. (A primeira oficina focalizou a produção cooperativa, e a terceira, a comercialização.) Esta ficha relata o jogo da 2a. oficina (setembro de 1999), que repetimos na 3a. (outubro de 1999), não mais como jogo porém como primeira reunião da Rede do RJ. Esta será motivo de outra ficha em breve.

    Passos do jogo:

    1. Conversa sobre os objetivos da Rede no contexto da socioeconomia solidária.
    2. Acordo/contrato com base em certos princípios.
    3. Criação coletiva da moeda comunitária: nome, valores de referência.
    4. Escolha da Coordenação, Secretaria, Recepcionista. Definição dos valores a pagar por seu trabalho.
    5. Recolha de telefones, fax e correio eletrônico (cel) de contato. Mapa das demandas e ofertas dos participantes.
    6. Feira.
    7. Avaliação.

    1. Iniciamos com uma conversa sobre a lógica e as regras do jogo. Definimos a Rede como uma das vertentes inovadoras da socioeconomia solidária, uma forma de nós, trabalhadoras e trabalhadores, colocarmos nossos recursos, capacidades e potenciais a serviço uns dos outros, e também ganharmos controle sobre o meio simbólico de viaibilizar trocas mais complexas - a moeda. Portanto, um fator de empoderamento pessoal e coletivo ao mesmo tempo. Surgiram logo questões que buscavam resolvar, teórica e conceitualmente, dúvidas que tratamos de esclarecer, com base no que aprendemos de outras experiências: como as da Argentina, Inglaterra e Irlanda.

    > Que fazer quando temos que comprar equipamentos ou componentes no mercado dos reais? Pagamos com reais ou com moeda social?
    -- Quem compra um produto ou serviço que envolveu custos em reais poderá pagar esta parte em reais ou na moeda social. O desejável, porém, é que o que vende aceite o pagamento em moeda social, por dois motivos, pelo menos. Um, para estimular as trocas solidárias no interior da Rede. O outro, porque ele poderá compensar a "perda" de reais comprando mais dentro da Rede, inclusive com a renda disponível em reais aumentada pelo fato de já não estar gastando reais para responder a diversas das suas necessidades.

    > Que é que me dá direito a receber uma certa quantidade de moeda social antes de trabalhar, produzir ou vender?
    -- A moeda que vamos criar e distribuir entre nós é diferente das que conhecemos. O valor dela não está nela própria, mas no trabalho que vamos fazer para produzir bens, serviços, saberes e depois trocar com o resultado do trabalho de outros. A moeda enquanto tal não tem valor, até que comecemos a trocar trabalho com trabalho. Aí, então, ela vai servir de mediadora destas trocas. Ela é diferente também porque a ela não está ligada nenhuma taxa de juros. Por isso não interessa a ninguém guardá-la, entesourá-la. Interessa, sim, torcá-la continuamente por bens e serviços que venham responder as nossas necessidades, pessoais, familiares, comunitárias, empresariais, e que venham melhorar nossa qualidade de vida. Esta moeda será sempre um meio, nunca um fim. Não será inflacionária nem jamis poderá ser usada para especulação.

    > Qual o número mínimo e máximo de pessoas num grupo da Rede?
    -- A experiência mostra que o número mínimo pode ser 5-6 pessoas, e o máximo em torno de 50. Mais que isto, só temporariamente, como forma de estimular e motivar a criação de um novo grupo.

    Sugerimos que vivenciássemos o jogo e buscássemos através dele as respostas a outras perguntas. Enfatizamos o aspecto de alternativa ao mercado capitalista que este jogo representa. E a inovação que significa ganhar controle comunitário sobre nossas finanças. Este caminho - a Rede de Trocas Solidárias usando moeda social - é uma vertente promissora do grande projeto de uma globalização cooperativa e de uma socioeconomia solidária e responsável.

    2. O grupo assumiu conjuntamente levar à prática estes princípios e perspectivas, na forma de um acordo verbal coletivo. Comentamos que, na constituição de um grupo da Rede, é importante também um compromisso individual por escrito.

    3. Distribuimos cartelas em branco, na forma de 'bilhetes' da mesma cor, 20 por cada participante. Que nome dar ao Grupo? Porpostas, discussão, votação, e foi aprovado o nome Mutirão Aquário da Rede de Trocas Solidárias do RJ. O mesmo fizemos em relação à moeda: Vitória. Deixamos, porém, de discutir a equivalência e avaliamos, no final, que este era o momento de fazê-lo. A equivalência acordada foi que uma Vitória seria igual a uma hora de trabalho social (manual ou intelectual), ou a R$ 5,00. Em seguida, decidimos adotar os seguintes valores em bilhetes: 10 de V$1, 5 de V$5 e 5 de V$10.

    4. Ainda como parte da preparação para a autogestão, escolhemos coordenador, secretário e recepcionista. Definimos que cada participante pagaria V$ 1 para remunerar essas funções e para gastos administrativos.

    5. Para o mapeamento das necessidades e recursos, pedimos a cada participantes para dar seu nome e telefone e apresentar suas necessidades. Eles acrescentaram "e sonhos"! Avaliamos depois que neste momento deveriam também ser apresentadas as ofertas e recursos, pessoais, familiares e grupais. Ao longo do jogo, escolhemos uma segunda secretária para compartilhar a tarefa de anotar, muito cansativa. No momento da exposição das ofertas/recursos, uma primeira revelação: os participantes, mesmo os que melhor se conheciam, descobriu talentos, capacidades e atividades desconhecidas e até surpreendentes uns para os outros. E já no meio da exposição, intervinham dizendo "ah, isto me interessa!", ou "ah, vou precisar de você"!

    6. Terminadas as exposições, iniciamos a feira. Alguns compraram banana-passa das companheiras da Kit-Fruta, todos começaram negociações bilaterais. Outra revelação. Como a complementaridade entre os recursos disponíveis no grupo e as necessidades era tão grande, estabeleceu-se espontaneamente uma negociação em dois planos. Um, o do jogo com vitórias, o outro, o da vida, na forma de acordos para depois de conlcuída a 2a. Oficina.

    7. Na avaliação, iniciamos constatando que foram feitas diversas transações durante o jogo. O entusiasmo com a dinâmica do jogo foi grande. Expressamos o desejo que ele continue na vida real. Vários consolidamos os acordos para depois de terminado o Curso. E afirmamos a necessidade de desenvolver esta Rede no contexto do Fórum de Cooperativismo Popular do RJ. Fui contratado para iniciar um Mutirão numa das cooperativas ali presentes. Constatamos que este sistema pode ser estabelecido também nas escolas infantis, não só com o fim de aprendizagem de socioeconomia, mas também para viabilizar o atendimento das necessidades, o aumento da sociabilidade e do bem-estar, e a redução dos custos entre os próprios alunos.
    __________________________________
    PALAVRAS-CHAVE: DINHEIRO; SOCIOECONOMIA; SOLIDARIEDADE; ESCAMBO; TROCA; COMUNIDADE; VALOR; DOMINAÇÃO; PODER; SOCIEDADE; AUTOGESTÃO; AUTOREGULAÇÃO.

    FONTE: PACS - Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul
    Rua Joaquim Silva, 56 - 8º andar - Centro - Rio de Janeiro, RJ,
    Brasil - 20241-110
    Tel.: + 55 21 252 03 66 - Fax: + 55 21 232 63 06
    pacs@ax.apc.org
    www.alternex.com.br/~pacs

    AUTOR: Marcos Arruda, coordenador geral do PACS e animador do Polo de Socioeconomia Solidária, da Aliança por um Mundo Responsável e Solidário.
    Rio, outubro de 1999.

     


     

    CORTANDO A AMARRA MONETÁRIA

    Marcos Arruda*

    O primeiro passo para qualquer comunidade que busca a auto-sustentação é estabelecer seu próprio sistema monetário.

    O nível de comércio em qualquer parte do mundo industrializado é determinado pela quantidade de dinheiro que entra a partir de fora. Sem o dinheiro não existe suficiente demanda efetiva e até trabalhos que comunidades locais podiam fazer para si próprios deixam de ser feitos. E todo dinheiro que entra, tende a sair outra vez. Quando os termos da troca são desiguais ou injustos, a tendência é sair sempre mais dinheiro do que entrou, resultando no empobrecimento relativo da comunidade.

    Uma maneira de diminuir a saída da moeda de outros países que ganhamos com nossas vendas para fora é produzir no país, cada vez mais, os bens e serviços que hoje compramos lá fora. O mesmo em relação a uma comunidade local. Mas com aquela substituição a fuga de recursos diminui mas não desaparece. Por isso, o melhor caminho é tornar nossas transações internas independentes do fluxo de dinheiro externo usando uma moeda própria para intermediar aquelas transações. Afinal, a única utilidade da moeda nacional nas transações entre pessoas que vivem próximas umas das outras é como medida do valor do trabalho de um vizinho ou vizinho para mim, comparado com o valor do trabalho que eu fizer para ele/ela ou qualquer outro vizinho. Famílias e pequenas comunidades estáveis de fato não precisam disso. Seus membros fazem coisas uns para os outros sem guardar um registro, confiando que uns ajudando os outros, todos acabam se beneficiando. Quando num sistema todos tiram o equivalente ao que contribuem, temos uma economia de equivalência. (Quando alguns tiram no sistema muito mais do que contribuem, temos uma economia não-equivalente. (Ver Arnold Peter)

    Douthwaite cita a comunidade de A'raim, nas ilhas Aran, como uma economia que funciona na base da equivalência e da confiança. No passado, diz ele, toda a sociedade bem sucedida tinha sistemas em que as pessoas trabalhavam umas para as outras e para o bem comum sem a intervenção do dinheiro. Eram sistemas de ajuda mútua, que prevaleceram durante milênios em comunidades onde a atividade básica era a pequena produção rural. Os valores da cooperação, reciprocidade, complementaridade, partilha, solidariedade são os dominantes nestes espaços. O sistema de ajuda mútua em que todos se ajudam e se apoiam se chama MEITHEAL em irlandês, e MUTIRÃO em brasileiro!

    Mas em geral as relações econômicas de hoje são demasiado complexas e transitórias para que caibam sistemas de troca de trabalho que dispensam um instumento de medida ou um símbolo mediador, exceto em espaços reduzidos. Nossas transações intra-comunitárias, então se tornaram altamente dependentes do fluxo de dinheiro do mundo exterior, o que nos torna muito vulneráveis caso o dinheiro de fora venha a faltar.

    Desenvolver unidades de medida independentes e suficientes para facilitar as trocas locais é, pois, um passo essencial no sentido da crescente auto-suficiência da comunidade. Centenas de comunidades em diferentes países do mundo já adotaram tais sistemas de medida, na forma de moedas locais, também chamadas moedas sociais. A maior parte delas deriva da que foi desenvolvida por Michael Linton no Vale de Comox em British Columbia, Canadá no início dos anos 80. A referência pode ser a moeda nacional, o tempo de trabalho ou outras unidades como litros de leite, cordadas de lenha, latas de carvão, etc.
    Os sistemas inspirados na experiência de Linton vieram a chamar-se Sistemas Comerciais de Troca Local (LETS, em inglês, SELS, em frnacês, STL, em português). Propomos um termo mais valorativo: STS - Sistemas de Troca Solidária. Eles tëm a ver com o povo na rua, bairro ou aldeia se reunindo para identificar suas necessidades e os recursos de que dispõem enquanto pessoas, famílias e comunidades; depois, reunem-se outra vez para planejar as formas de troca dos recursos na forma de escâmbio (troca direta) ou de venda de bens e serviços uns para os outros. O valor do que têm a oferecem é definido por um contrato coletivo e relacionado a uma unidade que servirá de medida de referência, ou moeda social própria daquela comunidade.

    Estes sistemas são flexíveis e não seguem um modelo único ou rígido. Alguns componentes utilizados incluem:

    - cadernetas de cheque,
    - sistema de registro, computadorizado sempre que possível, dos pagamentos feitos e recebidos por cada pessoa,
    - extratos da conta de cada membro enviados regularmente com periodicidade fixa,
    - uma unidade de troca ou moeda ("Reek", em Westport, Irlanda, "Eco", em Katoomba, Austrália, "Hora de Ithaca", em Ithaca, NY, EUA, "Brick", em Brixton, bairro ao sul de Londres, entre outros),
    - cadastro de bens e serviços oferecidos pelos membros, publicado periódicamente,
    - informativo periódico com notícias sobre o STS,
    - pessoas de fora do sistema podem ser pagas com o cheque ou o dinheiro social e usá-lo para comprar produtos do sistema, endossando-os no verso,
    - cooperativa para operar o STS (Meitheal na Mart, em Westport),
    - a unidade sendo não vinculada à moeda nacional impede que autoridades fiscais ou de assistência social tratem os rendimentos em moeda local como se fossem dinheiro corrente,
    - regras para restringir o uso da moeda nacional em trocas intra-STS,
    - quanto menor o sistema, mais cedo o poder de compra aportado por um membro tenderá a retornar a ele,
    - a oferta de moeda local, porque é criada por pessoas que produzem coisas umas para as outras, é sempre adequada para as suas necessidades,
    - em qualquer tempo e em qualquer STS, o total dos créditos de uns corresponderão ao total dos débitos dos outros: todos são incentivados a contrair débitos sem juros,
    - uma moeda local nunca pode ser usada como instrumento de poder e dominação - o sentido do dever para com o coletivo estimula a prática da equivalência.

    ***************************************************************************************

    Fonte: Richard Douthwaite, 1996, "Short Circuit: Strengthening Local Economies for Security in na Unstable World", The Lilliput Press, Dublin.

    Palavras-chave: ALTERNATIVAS, ASSOCIATIVISMO, AUTOGESTÃO, AUTONOMIA, NECESSIDADES, COMUNIDADE, COMPLEMENTARIDADE, CONSUMO, CONTRATO SOCIAL, COOPERAÇÃO, DEMOCRACIA, DIVERSIDADE, DINHEIRO, EQUIVALÊNCIA, EMANCIPAÇÃO, ESCÂMBIO, PODER, SOCIOECONOMIA, SOLIDARIEDADE, TROCA, VALOR, SOCIEDADE.

    FONTE DA FICHA: PACS - Instituto de Políticas Alternativas para o Cone Sul
    Rua Joaquim Silva, 56 - 8o. - 20241-110 Rio de Janeiro - Brasil
    Tel/fax 021 252 0366, 232 6306- Cel: pacs@ax.apc.org

    * Marcos Arruda é o Coordenador Geral do PACS e animador do Polo de Socioeconomia Solidária.
    Rio, junho de 1999.


    Breve notícia sobre o Encontro Internacional "Experiências inovadoras na formação profissional e a criação de empregos"

    Xico Lara*

    Do 04 ao 07 de outubro de 1999 realizou-se, no Instituto Pio XI, em São Paulo, o Encontro sobre "Experiências inovadoras na formação profissional e criação de empregos", organizado pela IIEP / Sebastião Neto, promovido pelo CEEP de São Paulo, financiado pela FINEP e com apoio da Ação da Cidadania - SP, Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, Conselho de Escolas de Trabalhadores, Faculdade de Educação da USP, e SERT-SP.

    Da delegação internacional participaram AGFOL (Mestre Veneza / Itália), CINTERFOR (Montevideo / Uruguai), ÉMERGENCES (Montreal / França), INFORCOOP / LEGACOOP (Roma / Itália), SPF (Paris / França).

    A carta de São Paulo, contendo a proposta da construção de um rede de cooperação e intercâmbio internacional sobre educação / formação profissional, geração de trabalho e renda e promoção de atividades econômicas populares e solidárias, resume sem o espírito, as discussões e o encaminhamento.

    Observam-se mudanças significativas no cenário mundial, onde se associam uma nova revolução tecnológica, a globalização dos mercados, uma nova correlação de forças políticas na esfera internacional e a predominância do mercado como instituição social. Desde os anos 80, orientações conservadoras e neoliberais informam às políticas dos governos da maioria dos países capitalistas. No Brasil, contrariando as vitórias populares obtidas na Constituição de 88, as conseqüências desse modelo de corte neoliberal são visíveis: a estagnação econômica, o desemprego, a desregulamentação das relações de trabalho e a sua precarização, e a exclusão crescente de jovens e adultos do mundo do trabalho e da cidadania.

    Historicamente, o movimento social e popular tem buscado formas alternativas de geração de trabalho e renda e novos modos de organização sócio-econômica, instituindo uma sociabilidade com base na solidariedade, na cooperação, auto-organização e auto-gestão.

    Associações de trabalhadores, cooperativas, empresas sociais e empresas auto-gestionárias constituem-se como possível alternativa mesmo que parcial e insuficiente de enfrentamento da crise do mundo do trabalho não só nos países periféricos, como também nos países ricos. Nesse contexto ganha relevo o papel da educação / formação profissional e de uma legislação de proteção social, como parte da luta maior pelo direito ao trabalho e condições de vida dignas para todos.

    Para discutir os desafios dessas alternativas de sobrevivência e iniciativas de formação profissional, encontrar formas de articulação das experiências populares em curso no país que se unam a todas as iniciativas políticas e sociais, visando resistir e se contrapor ao processo avassalador da economia de mercado que exclui a dimensão humana, reuniram-se em São Paulo, nos dias 4, 5, 6 e 7 de outubro de 1999, representantes de movimentos populares, ong's, sindicatos, instituições de educação / formação profissional, instituições governamentais e universidades, no país, e representantes de instituições internacionais que desenvolvem atividades e experiências no campo da formação profissional, cooperativismo e organização popular.

    Os diferentes grupos apontaram para a necessidade de consolidação do diálogo, intercâmbio e cooperação entre as iniciativas brasileiras e internacionais que apontam na mesma direção. No decorrer dos trabalhos foram indicados pontos positivos das experiências e empreendimentos sociais em curso. Foram, também, expressas algumas preocupações que sinalizam a necessidade de se aprofundar a discussão sobre a educação cidadã e o trabalho em cooperação.

    Com essa perspectiva, decidiu-se pela construção de uma rede internacional.

    *Educador - CAPINA


    Quem paga a conta?

    Quatro histórias sobre Globalização e Ajuste Macroeconômico

    1. GLOBALIZAÇÃO NEOLIBERAL -- Ahn Gun Jun trabalha 10h por dia na fábrica
    da Hyunday Motors, na Coréia do Sul, instalando aquecedores numa torrente
    infinita de estruturas de carros. Com sua mulher e seu filho de seis anos,
    ele paga $ 30 por mês por um apartamento de três quartos. Ele recebe um
    salário de $ 800 por mês, mas tem seguro de saúde e a matrícula escolar do
    filho cobertos pela empresa. Esta promete pagar também metade da matrículo
    anual do filho na universidade. Estas facilidades foram conquistadas
    através de longas lutas sindicais na Coréia do Sul. Agora Ahn está ameaçado
    de demissão. "A empresa precisa modernizar-se para enfrentar a competição
    internacional," justifica Chung Mong Gyn, presidente da Hyunday. E explica:
    "A Coréia é como um barco num oceano agitado. Há 10 pessoas a bordo. Nem
    todas podem sobreviver. Temos que lançar duas ao mar - uma condição
    necessária se as empresas coreanas quiserem se reestruturar e tornar-se
    eficientes no futuro." Ahn comenta: "Se tenho que perder o meu emprego,
    perco minha casa, meus vizinhos, meus amigos - praticamente tudo que tenho
    na vida. Se o sindicato convocar, vou para a rua em protesto. Não tenho
    escolha. Se for demitido, vou tentar trabalhar como motorista de táxi.
    Prefiro isto a me suicidar. Mas o risco de perder meu emprego é tão
    aterrorizante que não posso excluir a hipótese de suicídio." Entre a crise
    de 1997 e abril de 98, 25 coreanos se suicidavam por dia, em média, às
    vezes famílias inteiras! A criminalidade aumentou. Os roubos aumentaram 50%
    nos dois primeiros meses de 98, muitos feitos por pessoas que nunca haviam
    roubado antes, cometendo agora o que lá estão chamando de "crimes FMI de
    sobrevivência". [Fonte: International Herald Tribune, 19/5/98]

    2. AJUSTE ESTRUTURAL: DEMISSÕES, CORTES NA PREVIDÊNCIA, SEGURO-DESEMPREGO

    PRECÁRIO
    - José Luciano, ex-funcionário da Verolme, grande estaleiro do Rio
    e Janeiro, quatro filhos, foi demitido quando recebia um salário de R$ 545
    por mês. Hoje ele recebe R$ 150 mensais e faz biscates de pedreiro em Angra
    dos Reis, para manter sua família. O dinheiro não dá para alimentar a
    família e pagar todas as contas. Ele pesca para completar a alimentação. Há
    nove meses está inadimplente da Caixa Econômica Federal. Sua casa está indo
    a leilão. [Fonte: O Globo, 15/8/99]

    3. AJUSTE ESTRUTURAL: CONSEQÜÊNCIAS DA LIBERALIZAÇÃO COMERCIAL

    Margarida tem sete filhos, e trabalha como quebradeira de coco babaçu no sul do
    Maranhão, junto com os quatro maiores, ganhando R$ 3 por dia para quebrar
    mil cocos. Perdeu o emprego de um dia para o outro, juntamente com os
    filhos e várias colegas de trabalho. Ela não sabia que o Governo Federal
    havia liberado as tarifas de importação de óleos comestíveis vindos da
    Europa.

    4. AJUSTE ESTRUTURAL: CORTE NOS GASTOS PÚBLICOS

    Durante tres anos os Apinajé que vivem nos arredores de Tocantinópolis, Goiás, fizeram greve de reprodução, algo como um suicídio étnico. Quando visitei a aldeia percebi um vazio na escala das gerações de crianças daquele povo. Eles protestavam contra a resistência de sucessivos governos em demarcar suas terras e libertá-los dos conflitos com invasores. Os governos têm justificado o adiamento crônico da demarcação com base no ajuste estrutural e nos conseqüentes cortes de gastos sociais no orçamento. Precisam ampliar o disponível para pagar em dia a dívida aos credores externos e internos, os grandes bancos.

    PALAVRAS-CHAVE: GLOBALIZAÇÃO, AJUSTE, COMÉRCIO INTERNACIONAL,
    LIBERALIZAÇÃO, DESEMPREGO, DOMINAÇÃO, SOCIEDADE, .

    FONTE: PACS - Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul
    Rua Joaquim Silva, 56 - 8º andar - Centro - Rio de Janeiro, RJ, Brasil -
    20241-110
    Tel.: 55 21 252 03 66 - Fax: 55 21 232 63 06 CEl: pacs@ax.apc.org
    AUTOR: Marcos Arruda, coordenador geral do PACS, co-animador do Polo de
    Socioeconomia Solidária, da Aliança por um Mundo Responsável e Solidário e
    membro do Instituto Transnacional (Amsterdam).
    Rio, 13 dezembro 1999.



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